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Cultura

Dos sambaquieiros aos cabo-frienses: livro resgata história de Cabo Frio

Obra dos historiadores José Francisco de Moura e Luiz Guilherme Scaldaferri já está à venda

14 novembro 2020 - 17h13Por Redação
Dos sambaquieiros aos cabo-frienses: livro resgata história de Cabo Frio

‘Nossa ideia foi escrever um livro fundamental. Que, daqui a 300 anos, ainda seja consultado”, conta o professor José Francisco de Moura, autor de História de Cabo Frio – dos sambaquieiros aos cabo-frienses (c. 3.720 a. C. – 2020)’ ao lado de Luiz Guilherme Scaldaferri. Do plano ousado originou-se uma rica pesquisa, inclusive com material inédito na historiografia local. Com prefácio assinado pela professora Denize Alvarenga, a obra pode ser adquirida diretamente com os autores e também está disponível no site da editora Sophia. Envios são para todo o país, com pagamento facilitado em até 12x sem juros. As entregas começam a partir do dia 18 de novembro.  

Folha dos Lagos - Como surgiu a ideia de publicar este livro?
Luiz Guilherme Scaldaferri - A ideia de publicar o livro diz respeito ao fato de a gente ter uma síntese da história de Cabo Frio mais recente. Algo que não havia, mesmo com os memorialistas e historiadores mais antigos, que  traziam assuntos pontuais, com visões muito pessoais, que se cruzavam com suas histórias de vida. Mesmo o livro clássico do Abel Beranger [Dados Históricos de Cabo Frio] é muito restrito a questões pessoais do autor. Há, também, a necessidade de nós, como professores de história do ensino básico, deixarmos algum material que seja útil para os colegas usarem nas salas de aula do município de Cabo Frio, mas também na região como um todo, já que pensamos a região de Cabo Frio, em alguns momentos de história, como a grande Cabo Frio, que abarca outros municípios como São Pedro da Aldeia, Arraial do Cabo, Armação dos Búzios, Saquarema, Casimiro de Abreu, que pertenciam em tempos passados a Cabo Frio. 

José Francisco de Moura - Estava faltando um livro sobre a história de Cabo Frio que fosse bem factual, bem denso, bem cronológico.

Folha - Como foi o processo de pesquisa? Quanto tempo durou e quais as maiores dificuldades?
Luiz Guilherme – É difícil dizer quanto tempo tomamos para fazer essa pesquisa, pois são preocupações que vêm de muitos anos. Coletamos materiais e acabamos escrevendo um texto aqui, um texto acolá. Eu, por exemplo, estou na região há 20 anos e há 20 anos pesquiso a história da região. A escrita, em si, durou um ano, um ano e meio. Mas nós não nos dedicamos única e exclusivamente à pesquisa. Afinal, temos nossas obrigações como professores de ensino básico. Essa é uma questão. A outra é que não temos apoio governamental. Tem, também, as dificuldades de acesso a determinadas fontes. O que, em parte, é menos problemático, já que, por causa da internet, tivemos acesso a documentações que datam do período colonial e estão, por exemplo, em Portugal, e também a jornais antigos, que estão na Biblioteca Nacional. 

Folha - De que maneira a obra preenche uma lacuna na bibliografia da história da cidade?
Luiz Guilherme – Ainda não havia sido publicada uma síntese da história de Cabo Frio, desde os primeiros povos, os sambaquieiros, até 2020, que é o marco final do livro. Além disso, temos novas maneiras de enxergar a história, fruto do desenvolvimento da pesquisa histórica, que nos permite analisar Cabo Frio sob outra perspectiva. Exemplo mais claro é a participação ativa dos índios no processo de construção da história de Cabo Frio, que é bastante importante e é, infelizmente, negligenciado. Da mesma maneira, podemos falar sobre a história dos negros na sociedade cabo-friense. Alguns memorialistas antigos, mas nem por isso menos importantes, dão uma visão romanceada sobre a escravidão em Cabo Frio, o que não corresponde às pesquisas com fontes primárias. É muito importante chamar atenção para esse detalhe. 

Também é importante destacar outros pontos. Temos uma lista atualizada de governadores de Cabo Frio, alguns até então inéditos na historiografia local. Temos um quadro populacional bastante importante mostrando como foi questão demográfica da cidade. Um aspecto importante é a lista de vereadores atualizada, com alguns vereadores do século 18 até então desconhecidos. Temos mapas inéditos, no capítulo três. Temos uma lista importante, por conta da questão social, de padres e religiosos que foram importantes para a história da cidade. Trazemos também um pouco da história dos ex-distritos, que são importantes para a história local e ficam sempre em segundo plano. 

José Francisco - Nossa ideia foi escrever um livro fundamental. Que, daqui a 300 anos, ainda seja consultado. Até porque, por incrível que pareça, não existem ainda grandes manuais sobre a história da cidade. Aliás, a história do interior do estado do Rio ainda está para ser contada. 

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Folha - Quais partes da pesquisa mais chamaram a atenção?  Houve surpresas até mesmo para pesquisadores que conhecem com profundidade a história da cidade?

Luiz Guilherme - A parte que me chama mais atenção é o capítulo 3, particularmente, que tem como tema a própria cidade na questão urbana, geográfica. Como a cidade foi aos poucos, muito lentamente, deixando viés colonial, que vai até início do século 20, e vai se constituindo como cidade de porte médio. E como vamos perdendo característica de cidade provinciana, com questões mais complexas como problemas de transporte, saneamento, segurança, falta de emprego etc, que precisam ser repensadas pelas autoridades, que pretendem governar a cidade. 

Folha - O concurso de Cabo Frio passará a abordar a história da cidade. Qual a importância disso, na opinião de vocês, e de que maneira o livro poderá ajudar os participantes?

José Francisco - Sempre fui um defensor radical de que o concurso tivesse história da cidade. Primeiro, para que a pessoa que viesse fazer concurso público soubesse minimamente como a cidade se desenvolveu e quais as características do município. E, também, por uma visão pragmática. Acho que isso facilita para os cabo-frienses. Diminui um pouco a vantagem da pessoa de fora que vem, geralmente melhor formado. Tenho orgulho que fiz a quatro mãos essa lei, junto com o [vereador] Edilan e com o irmão dele, o Edinho Ferrô. Acredito que deveria haver uma lei dessa em todos os municípios. 
 

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