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Depois do galpão do sal, casa de Edilson Duarte deve ser demolida em Cabo Frio

Autor do pedido de preservação do imóvel ano passado, Conselho Municipal do Patrimônio Cultural mudou de ideia e votou pela demolição esta semana

29 agosto 2025 - 17h51Por Cristiane Zotich
Depois do galpão do sal, casa de Edilson Duarte deve ser demolida em Cabo Frio

Mais um prédio histórico de Cabo Frio está prestes a desaparecer. Depois da polêmica demolição do Galpão do Sal (em 2021), agora é a Casa do professor Edilson Duarte, na Avenida Teixeira e Souza, que corre o mesmo risco. O Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (CMUPAC) votou nesta segunda-feira (25) pelo arquivamento do processo de tombamento do imóvel e autorizou o prosseguimento da sua demolição.

O pedido de preservação do imóvel foi formalizado em julho de 2024, no processo nº 2024/27555. À época, o então secretário municipal de Cultura, Márcio Lima Sampaio, informou no documento que o pedido de tombamento foi registrado em ata do CMUPAC, durante reunião realizada no dia 25 de julho de 2024. Na ocasião, o órgão estava sob a presidência de Sérgio Nogueira, que hoje é diretor do Imupac. Apesar disso, segundo conselheiros da nova gestão, foi o próprio Sérgio quem apresentou o pedido de arquivamento do processo e de demolição do imóvel. A Folha tentou falar com ele, mas não houve sucesso.

O imóvel é uma casa térrea com características arquitetônicas do início do século XX, descrita por especialistas como de relevância histórica, cultural e paisagística, e por ter pertencido a Edilson Duarte, educador, advogado, político e ex-prefeito de Cabo Frio, além de cronista e presidente do Tamoyo Esporte Clube.

O arquivamento do pedido de tombamento da casa de Edilson Duarte foi aprovado com votos favoráveis do governo municipal, representado pelas secretarias de Gestão Territorial e Economia Azul, Turismo, Igualdade Racial, Cultura e Procuradoria, com apoio da Câmara de Vereadores. Já os órgãos técnicos que integram o Conselho (Iphan, Inepac e Uenf) foram contra o arquivamento do pedido de tombamento. Também membro do CMUPAC, o Coletivo Griot se absteve de votar. A Asaerla, que ocupa a presidência do órgão, só vota em caso de desempate. O Ibram faltou à reunião. O arquivamento do processo gerou reação imediata. Para Lucas Muller, da ONG Cabo Frio Solidária e ex-vice-presidente do CMUPAC, a votação expõe fragilidades no colegiado:

“Defendemos que se faça estudo mais aprofundado”

Em entrevista à Folha esta semana, Carina Mendes (doutora em arquitetura e urbanismo e chefe do escritório técnico do Iphan) disse que a decisão pela demolição da casa de Edilson Duarte “foi precipitada e merecia olhar mais atento”. Afirmou ainda que o papel do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural deve ser repensado.

Folha – O Iphan apresentou relatório e defendeu o tombamento da Casa Edilson Duarte. Qual foi a principal fundamentação técnica usada neste parecer?

Carina – O que defendemos no parecer é que se faça um estudo mais aprofundado do imóvel dentro do contexto de sua caracterização arquitetônica, urbana e histórica. Argumentamos que o discurso da simplicidade não seja utilizado como discurso para desqualificação e falta de relevância do imóvel, pois a arquitetura dita modesta é muitas vezes mais relevante do ponto de vista histórico, arquitetônico e social do que as edificações de destaque.

Folha – O que, na avaliação do Iphan, torna esse imóvel relevante para a preservação da memória de Cabo Frio?

Carina – O imóvel pode ser lido e analisado no contexto de uma produção arquitetônica residencial de meados do século XX. É preciso um olhar mais atento para essa produção a fim de definir os exemplares ainda existentes que devem ser preservados.

Folha – Na sua visão, qual é o risco quando decisões técnicas são superadas por representantes políticos em conselhos como o CMUPAC?

Carina – Minha preocupação não é propriamente com a necessidade de prevalência da decisão técnica, mas sim com o papel do Conselho Municipal de Patrimônio, que deve justamente ter um olhar sensível para o tema e estar atento às transformações locais.

Folha – Caso a demolição seja autorizada, o que Cabo Frio perde em termos culturais, históricos e identitários?

Carina – Perde a possibilidade de preservar a arquitetura local, nesse contexto da arquitetura residencial local. Lembrando que as características arquitetônicas são lidas não só nas soluções materiais, formas e estilos, mas também na maneira de implantação do imóvel no terreno, na sua relação com a rua e com o restante da cidade.

Folha – O Iphan pode adotar alguma medida administrativa ou judicial para tentar reverter a decisão?

Carina – Não. O Iphan já se manifestou no âmbito do Conselho.

Folha – Existe a possibilidade de o imóvel ser avaliado em instâncias superiores, fora do Conselho Municipal?

Carina – Não. Por isso temos as esferas de defesa do patrimônio: federal, estadual e municipal. Esse seria o caso de uma avaliação municipal, tendo em vista que suas relações de memória e identidade teriam sentido no âmbito da cidade de Cabo Frio.