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MULHERES DE SAL

De sal, mar e palavras: a literatura das mulheres na Região dos Lagos

Contemplado pela Lei Aldir Blanc, projeto iniciado em janeiro capacita escritoras para o mercado editorial

02 maio 2021 - 13h36Por Carol Gonçalves

Existem chamas dentro de nós que não são apagadas por qualquer gesto de desmotivação. Prova disso é a fala da produtora cultural, escritora e antropóloga Aline Moschen, que introduz o documentário do projeto Mulheres de Sal. Inquieta com um antigo desejo de fazer movimentações em torno da literatura, a moradora de São Pedro da Aldeia empreendeu esforços para tornar real o sonho de infância, não só pra ela, mas para uma rede de mulheres atuantes na Região dos Lagos.

Com início em janeiro deste ano, o projeto Mulheres de Sal, além do documentário disponível no Youtube, compreendeu a capacitação de mulheres para entrada no mercado editorial, ofertando quatro oficinas on-line de formação, com compartilhamento de técnicas de escrita, publicação e difusão literária. Uma oportunidade fomentada pelo Edital Retomada Cultural, promovido pela Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro como ação decorrente da Lei Aldir Blanc.

A rápida adesão só evidenciou o quanto nossa região é rica em literatura. Em menos de 48 horas, todas as vagas já haviam sido preenchidas, sendo necessário a abertura  de lista de espera para as demais interessadas.

Compreendendo a importância dos marcadores sociais no acesso a bens e a espaços, houve um empenho para que mulheres de diferentes perfis fossem alcançadas. Das 40 mulheres que participaram das oficinas, 52% se autodeclararam brancas, 37% negras, 3% indígenas e 8% preferiram não declarar. A presença de mulheres trans também foi um compromisso traçado, contribuindo, mesmo que de forma ainda tímida, para o avanço do debate em torno das diferentes mulheridades existentes no mercado editorial.

Por falar em mercado editorial, os textos produzidos durante as oficinas foram transformados em e-pub através da parceria com a Sophia Editora. A antologia reúne mais de 40 textos, divididos entre poesias, contos e crônicas e trechos de diários. Nela, estão presentes mulheres já reconhecidas na literatura da região e outras que publicaram pela primeira vez.

A parceria se estendeu para a criação do selo “Mulheres de Sal” da editora, trabalho que fortalece os caminhos daquelas que desejam ter suas palavras ampliadas de forma profissional.

As obras ali expostas demonstram o quanto somos singulares e, ao mesmo tempo, compartilhamos de experiências parecidas. O quanto o ofício da escrita é ferramenta potente para exercer a criatividade, a expressão de si e a autoconstrução.

Pensando no caminho percorrido entre viver, sentir e escrever, a escritora Ágatha Íris (moradora de Cabo Frio), participante das oficinas e do documentário, refletiu:

“A escrita também é sobre escrevivência. É sobre mulheres que escrevem suas perspectivas do que sentem, a partir de uma realidade, à qual são submetidas. Sobre os seus sentimentos, sobre os seus afetos, sobre os seus desafetos, né?! Sobre a sua dor, mas também sobre sua alegria. Ser mulher, ser travesti, ser uma mulher trans é alegria. Também é sinônimo qualitativo e não um sinônimo pejorativo. É preciso a gente construir essas novas possibilidades...”.

A ressignificação do que é possível às mulheres na literatura não é trabalho de hoje. Em 1897, a escritora Júlia Lopes de Almeida teve sua presença negada para compor a Academia Brasileira de Letras. Na época, o lugar que deveria ser seu, foi ocupado pelo marido. O motivo? A proibição de uma mulher estar em espaço de tamanho prestígio. Somente em 1977, quase um século depois, houve a modificação dos termos da Academia e Raquel de Queiroz pode ser a primeira mulher a ocupar o quadro dos imortais.

Décadas de invisibilidade estrutural não foram o suficiente para diluir a força presente nas nossas palavras. Mulheres de Sal chegou para ser rede, para impulsionar a criação, para oxigenar os espaços e evidenciar que somos muitas e capazes de muitas coisas. Ao total, foram 854 pessoas alcançadas em todas as ações do projeto, fato que nos inspira a não deixar a chama dos nossos sonhos apagar.

 

“…

Mulheres de mar e sol,

De gosto extremo e sabor sem igual,

Essa mulher com aval...

Essa mulher é um caos!

Mulher que lê, que escreve,

Que exala seu valor

Com lápis ou computador.

Mulher que mostra a que veio,

Olhar deitado nas letras, coração cheio de brechas

 

Nas brisas do mar interior.

Aquela que no infinito encontra seu aval,

Mulher de água, profunda,

Que mergulha e ressurge,

De fato e poesia,

Aquela que irradia e tira o avental

Mulher de Sal, Mulher de Sal, Mulher de Sal!”

 

Trecho da poesia “A ventania da feminilidade” de Juliana Ramos Azevedo/Rio das Ostras.

 

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