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Da Região dos Lagos a Hollywood: a jornada de um baterista cabofriense

Conhecido na cena de rock de Cabo Frio, Gustavo Campos agora faz turnê com a banda Reign of Lies nos EUA

12 julho 2014 - 14h12Por Rodrigo Cabral
Da Região dos Lagos a Hollywood: a jornada de um baterista cabofriense

"Vou tocar no House of Blues de Hollywood", avisou Gustavo Campos no Facebook, com a tranquilidade de quem dava um simples "bom dia" - o que, na verdade, diz muito sobre a personalidade do baterista cabofriense de 32 anos: embora tenha começado a tocar em bandas de hardcore (o legítimo rock 'pauleira'), ele não abdica da tranquilidade e da forma sempre calma de conversar.   Assim começou esta entrevista: um bate-papo virtual, em que o aluno de uma das universidades de música mais respeitadas do mundo, a Musicians Institute (MI), relembra como conheceu a arte das baquetas na cena de rock cabofriense (tocou em bandas como Solstício e Naíra) e se lançou numa jornada rumo aos Estados Unidos para viver do que ama: música. "Ninguém pode viver sem arte. É que nem comida, só que alimenta a alma e o pensar", diz.

Folha - Que tipo de som desperta seu interesse hoje?

Gustavo - Tenho ouvido muita coisa diferente do que costumava ouvir.  Sou eclético desde pequeno. Na segunda metade do ano passado, ouvi muito City Colour e o novo disco do Daft Pank. O novo álbum do Queens of The Stone Age é o que ando ouvindo mais no momento, junto com o novo do Snarky Puppy, Dillinger,  Escape Plan. O The Neighborhood tem uma música que gruda na cabeça. Chama-se Sweater Weather. Acho legal a produção dessa música, o jeito que foi mixada.

Folha-  Você curte esse tipo de música 'chiclete?

Gustavo - Geralmente, a música que gruda na cabeça é a que tem uma melodia simples ou a que te lembra algo. Gosto de coisas simples. Música não tem que ser complicada para ser legal. Muito pelo contrário. Ah, esqueci de falar: gosto muito também de música latina.

Folha - Descobriu a América Latina morando nos EUA?

Gustavo - Saí do Brasil gostando mais de samba e música regional. Ao chegar nos EUA, conheci meu grande amigo e um dos meus mestres, que infelizmente faleceu no dia primeiro de maio, Chuck Silverman. Foram dois anos de contato com as músicas que ele me passava. O Chuck influenciou muita gente e estava fazendo um documentário sobre a música cubana, resgatando as tradições... Hoje em dia não se toca mais como se tocava antes. Ele estava preocupado com os últimos rumbeiros vivos. Infelizmente, não conseguiu concluir o trabalho... Um grande herói!

O fato de eu levar jeito para o estilo contou muito também. Foi assim que passei para uma empresa que contrata músicos para tocar em Cruzeiros e ganhei certo reconhecimento dentro da faculdade, o que é bem legal.

Folha – Conta melhor essa história de tocar em Cruzeiro.

Gustavo - Bom, a empresa abriu audição para contratar músicos. Basicamente, você tem que tocar todos os estilos. Eu fiz a audição e passei. Eu e mais duas ou três pessoas da faculdade inteira. Foi uma grande vitória para mim.  Ainda não comecei a trabalhar, pois estou na lista de espera para caso apareçam vagas que casem com as minhas habilidades.

Aqui, também estou bastante o Jack White, por incrível que pareça.

Folha - Mas o que é que você não ouve de jeito nenhum?

Gustavo - Não vejo música como competição. E ponto final. Para mim, qualquer música pode ter algo que te pegue. A "música ruim" tem a mesma importância que a "música boa" simplesmente pelo fato de te ensinar mais ou mesmo tanto quanto a música boa. Se houvesse apenas música boa, quais seriam as referências? Também gosto muito de ouvir as produções. E, às vezes, músicas que não gosto têm ótimas produções. Mas, respondendo diretamente, não ouço funk (o carioca), pagode (mas amo samba), forró (mas gosto do regional nordestino), axé e o que se intitulou sertanejo universitário.

Folha - Você começou a tocar no hardcore. Ainda costuma ouvir bandas do estilo?

Gustavo – Atualmente, não ouço mais tanto. Tudo soa muito igual e já não tenho mais a paciência. Mas a maioria dos meus amigos é ligada à cena. Ainda ouço gente que era e ainda é da cena em outros projetos. Ainda tenho uma ligação muito forte e me considero incluído no estilo, embora meio afastado.

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Folha - Nesse tempo, você vivenciou de perto a cena regional. Quais são as dificuldades de estar numa banda longe da capital? Aliás, para um músico, a melhor escolha é sair do interior?

Gustavo - Para mim, é um problema cultural nacional. Eu sempre tocava em um bar. Uma vez, na hora de pagar, o dono falou: "Você se divertiu, comeu de graça e ainda quer receber?". As pessoas são acostumadas a não seguir seus sonhos e não são preparadas a compreender o  sonho dos outros. Somos imensamente atrasados. Isso é culpa nossa também, mas grande parte da culpa é do governo, que não estimula educação musical em escolas, não apoia projetos com música, mas apoia a Claudia Leitte com o projeto dela. Por isso mudei para os EUA. Não foi fácil vir. Nem é fácil ficar. Minha vida não é um mar de rosas. Posso citar que vivi nove meses num lugar tão ruim , tão ruim, que não tinha água para beber e não tinha água quente. Banho frio no inverno dos EUA não é nada agradável.

Mas não vejo muita diferença entre capital e interior. Depende das pessoas que você conhece. Se você conhece mais pessoas que possam te empregar no interior, vai ser melhor para você o interior. Se quiser ser músico, minha dica é: vai para a rua conhecer gente! E tenha um bom relacionamento com as pessoas.

Folha - Você acha que músico no Brasil é subvalorizado?

Gustavo - Tenho certeza. Arte é algo secundário no Brasil. Mas ninguém pode viver sem arte. É que nem comida, só que alimenta a alma e o pensar. Talvez por isso estejamos na situação que estamos.

Folha -Como foi a sensação na primeira vez que fez um show fora do Brasil?

Gustavo - Foi como começar de novo. Tem sido um bom teste para saber o quanto eu amo fazer isso. Tocamos em uma competição de todas as bandas de Los Angeles no Hard Hock Café e chegamos na semifinal. A receptividade com o músico brasileiro em geral é boa. Eles esperam de você uma “batida” diferente, que de fato temos. É importante ter a sua identidade e não querer copiar o músico americano. Alguns que copiam podem ter até ter espaço. Mas depois de um tempo isso vai saturar.

Confira abaixo vídeos de Gustavo fazendo o que mais gosta.