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Cultura

"Contos Suburbanos": novo livro de Ricardo do Carmo tem doses de humor e polêmica

25 agosto 2021 - 17h37Por Cristiane Zotich

Quem gosta de uma boa leitura já tem à disposição o livro “Leitores de Aluguel - Contos Suburbanos”, do escritor Ricardo do Carmo. O lançamento acontece nesta quinta-feira (26), às 19h, na Casa de Cultura José de Dome (Charitas). Na publicação, Ricardo traz textos que misturam humor, cotidiano e uma dose de polêmica, trazendo à discussão temas considerados tabus, como a sexualidade. Tem, também, um espaço dedicado à Cabo Frio, inspirado no memorialista e ex-arquivista da Prefeitura, Octacílio Ferreira.

- É importante ler porque são temas de grande força humana, abordados de forma surpreendente, com um toque de poesia. Ou como disse na apresentação do livro a doutora em estudos literários da UFF, Maria Geralda de Miranda, “os contos, quase crônicas, possuem leveza poética, lirismo e rica ironia” -, contou.

Em conversa com a Folha, Ricardo do Carmo falou sobre o processo de criação e inspiração da nova obra, e revelou que o livro está disponível nas grandes lojas virtuais da internet como Amazon, Travessa, Shoptime, Submarino, Americanas e Estante Virtual.

Folha - O que te levou a escrever esses Contos Suburbanos?

Ricardo - A poética do subúrbio sempre me chamou atenção. Morei durante muitos anos no subúrbio carioca da Leopoldina. Morava perto da Praça das Nações, que para mim era mesmo de todas as nações. E tinha as Avenidas Nova York, Bruxelas, Roma, Paris. Já pensou? O mundo inteiro ali. Era aquele bairro simples, mas na imaginação, planetário. Minha casa era ampla e vivia aberta. Vinha muita gente. Eram muitas histórias. Meus pais foram anfitriões generosos. Era sempre o café longo e açucarado. Muitos parentes distantes, vizinhos apegados, figuras típicas: o homem da luz, o vendedor de linguiça, a manicure atualizando os assuntos. O jogo de buraco até a madrugada, os amigos do Conservatório de Música. Aos sábados, minha mãe fazia um cozido português, que eu vou te contar. Isso tudo acabou virando literatura.

Folha - E por que esse nome “Leitores de Aluguel”?

Ricardo - Leitores de aluguel é o nome de um conto do livro que discute a problemática dos autores novos, o pouco espaço nas editoras, a falta de leitores. O personagem Ávila Machado leva anos escrevendo um romance e quando o livro fica pronto ninguém se propõe a ler: nem os familiares, nem os amigos, nem os vizinhos… Então ele procura a Associação dos Leitores de Aluguel. Não vou contar o resto para não perder a graça, mas é uma narrativa muito engraçada e crítica.

Folha – A literatura parece ainda difícil no país. Você falou em autor que não é lido. Você tem livros infantis, livros de poesia, contos. Foi premiado em concursos literários. Você é muito lido?

Ricardo - Quem sou eu! É claro que não. Nem Guimarães Rosa, que é gênio, é lido como merecia; nem Villa-Lobos é escutado como devia, nem Portinari é admirado como deveria ser. O Brasil é um país que tem uma grande dívida com seus artistas, seus autores, alguns geniais, que são reverenciados no mundo inteiro, menos no seu próprio país.

Folha – Você falou em narrativa engraçada. É um livro bem-humorado?

Ricardo – Sim, acho que a veia humorística é um ponto forte do livro. Percebe-se claramente isso nos contos “Surto de carioquice”, “Freguês de ladrão”, “As roupas do morto”, e por aí vai. Mas que fique claro que em nenhum momento eu abri mão de fazer literatura. A maneira de escrever para mim é muito importante. A literatura é o espetáculo da palavra. Até por ser poeta eu valorizo muito a escolha das palavras, a arquitetura estética, enfim essas coisas indispensáveis ao texto literário.

Folha – Tem algum conto polêmico?

Ricardo – Ih, muitos. “Separação impossível”, “Os benefícios da próstata”, “A primeira e a última”, “A Nova Cinderela”, “Bodas de fumaça”. São temas ligados a alguns tabus e à sexualidade, que alguns ainda insistem em procrastinar. Folha – Tem algum conto predileto? Ricardo – Alguns. “Até quinta-feira”, por exemplo. É um conto dramático, que revela o sofrimento de seu China com malfeitores que o expulsam de casa, apesar do seu vasto currículo de suburbano. Tem “Se Cosme e Damião fossem mulheres”, um conto de uma pureza, uma refinada sensibilidade, que fala de duas vizinhas que conversavam sempre no fundo do quintal, separadas por um muro. Tem o conto “Mãe, fiquei em matemática!”, que narra o sequestro equivocado de um professor de matemática. Esse conto tem um dos parágrafos mais bonitos do livro, que diz assim: “Era tarde de verão, com seus vermelhos, seu mormaço brabo. Quem conhece o subúrbio sabe o quanto de cor e calor tem cada coisa. No subúrbio é que fica o sexo da cidade”.

Folha – Tem Cabo Frio nesse livro, também?

Ricardo – De cara a capa do livro foi concebida por um artista plástico da cidade. Chama-se Rapha Ferreira. Um artista novo, de grande potencial. O personagem de “Surto de Carioquice” foi totalmente inspirado no memorialista e ex-arquivista da Prefeitura, Octacílio Ferreira, um homem que adorava história e que tinha a mania de bater nas paredes e brincar: “Ah, se essa parede falasse!...” Ele era tão apaixonado pelos patrimônios que via aquelas paredes como testemunhas oculares da história, e achava que se elas falassem poderiam esclarecer muitas interrogações. Pois ele é o protagonista desse conto, fundamental no livro. Tem o conto “A Esperança no chão”, em que eu me inspirei no Colégio Estadual Miguel Couto, em dias de eleição, quando os cabos eleitorais, durante a madrugada, espalham os santinhos que sobraram da campanha, para que o eleitor indeciso possa escolher, no chão, os nossos governantes. Enfim, não é preciso dizer que Cabo Frio nunca vai deixar de estar na minha vida e na minha literatura. Mas como disse o escritor Afonso Machado, que fez o prefácio do livro, “Leitores de Aluguel faz da aldeia o universo”. Então são histórias de todos, universais.

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