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PRESERVAÇÃO

Conselho do Patrimônio pede tombamento da antiga Salina Perynas, em Cabo Frio

Solicitação foi feita esta semana e protocolada na Prefeitura de Cabo Frio para envio ao IMUPAC

08 junho 2024 - 10h05Por Cristiane Zotich
Conselho do Patrimônio pede tombamento da antiga Salina Perynas, em Cabo Frio

Foi enviado esta semana ao Instituto Municipal do Patrimônio Cultural (IMUPAC) um pedido para tombamento de toda a área da antiga companhia Salina Perynas. A solicitação, feita pela ONG Cabo Frio Solidária e pelo Conselho de Patrimônio (CMUPAC), abrange o valor de patrimônio histórico centenário, ambiental e científico da área, que engloba a antiga fábrica, o conjunto histórico da casa do ex-governador Miguel Couto, a Capela Santa Rosa de Lima,e ainda os esquadros de salinas e o horto, com cinco mil espécies de restinga. Ao todo são 1.170.000,00 m² de área.

Segundo Lucas Muller, da ONG Cabo Frio Solidária, e vice-presidente do CMUPAC, “foram meses de pesquisa”.

– Eu considero esse momento muito importante, principalmente porque tivemos muitos pesquisadores envolvidos nesse projeto durante meses, como João Christovão, Márcia Quaresma, Amilcen Garcia, eu e Sylvia Marques, que é neta de Miguel Couto (pai do ex-governador Miguel Couto Filho), e mãe da cantora Marisa Monte, que na infância brincava ali naquela área de salinas. Sem dúvidas esse é um passo muito importante para a preservação da memória da nossa cidade. E um sonho cada vez mais próximo de, no futuro, termos ali um parque público, Museu do Sal em uma salina de verdade, além de pesquisas científicas universitárias no local - contou.

A atividade salineira de Perynas teve início logo após o fim do Contrato do Sal (1631/1801), que proibia a produção de sal no Brasil. Após obter uma concessão de terras devolutas em área de marinha, feita em 1828 por D. Pedro I, o alemão Luís Lindemberg (chegado ao Brasil em 1808) construiu a Salina Grande, em Perynas. A empresa se tornou a primeira grande produtora de sal no Brasil. Segundo artigo de autoria do pesquisador João Christovão, “milhões de toneladas de sal foram produzidas por seus trabalhadores ao longo de quase 180 anos de atividade”.

A pesquisa, publicada por João em 2022 no site do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho (LEHMT), revela que Luís Lindenberg morreu em 1850, deixando aos seus descendentes uma grande fortuna. “Os 109 escravos que chegou a possuir foram responsáveis diretos pela construção e funcionamento da primeira salina comercial do Brasil, bem como pelo resto do seu patrimônio que, em grande parte, não foi mantido por seus herdeiros”, relatou.

Ele conta ainda que em 1891 a maior parte de Perynas foi vendida ao Banco do Comércio e Indústria do Brasil. Em 1895 a companhia foi adquirida pelo empresário José Caetano Jalles Cabral que, em 1923 a vendeu ao seu genro, o médico e professor de medicina, Miguel Couto, pai do ex-senador e ex-governador do Rio de Janeiro, Miguel Couto Filho, que chegou a presidir a Salina Perynas. Foi durante a gestão dele que Perynas estreitou relações com as esferas governamentais que deram ao sal o status de política de Estado. Em 1929 a empresa adquiriu o direito de utilizar o porto do Forno em Arraial do Cabo, controlando toda a cadeia produtiva do sal. E na década de 1940 surgiu o Instituto Nacional do Sal e a Álcalis, empresa estatal produtora de barrilha e a iodação do sal.

Perynas chegou a ter cerca de 500 trabalhadores fixos registrados e exercia enorme influência local. Mas, com a concorrência do sal potiguar (1974) e o aumento do turismo ganhando impulso com a inauguração do Porto Ilha, em Areia Branca (RN), e da Ponte Rio-Niterói, a companhia tornou pública, em 1983, o interesse em deixar a produção de sal para atuar na área do turismo. A mudança nunca se concretizou. Perynas encerrou suas atividades na primeira década do século XXI deixando para trás ruínas e muitas dívidas.

Além dos relatos de que alguns ex-funcionários lutam até hoje para receber seus direitos, em janeiro de 2019 a Folha chegou a noticiar que a Justiça havia determinado o arresto de mais de 9 milhões de metros quadrados da antiga companhia. O objetivo era garantir o pagamento de valores que não teriam sido quitados pelo atual proprietário aos antigos donos.

Na época, o atual proprietário negou a existência de dívidas, e anunciou que planejava realizar um grande empreendimento no local, incluindo loteamentos, hotéis, centro de pesquisa, instalação de indústrias e até um oceanário, que seria o segundo maior do mundo, atrás apenas do oceanário de Georgia, nos Estados Unidos. Chamado de “Nova Cabo Frio”, o projeto ocuparia cerca de 11 milhões de metros quadrados, uma área que corresponde a todo o centro de Cabo Frio, incluindo alguns bairros do entorno como Vila Nova, Jardim Caiçara e Braga..