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MEMÓRIA 405 ANOS

Cine Recreio: quando Cabo Frio se encontrava em frente à telona

Hoje fechado, espaço formou gerações de apreciadores da sétima arte na cidade

25 novembro 2020 - 09h00Por Rodrigo Branco

A presença do baleiro Dida, chamando os clientes de ‘primo’, está viva na lembrança dos cabo-frienses. Assim como o cheiro da pipoca que vinha da carrocinha, em frente à Praça Porto Rocha, coração da cidade. São memórias, afetos e histórias que fazem do Cine Recreio um marco na história de um município, rico em recursos naturais, mas que, por muito tempo, tinha nas sessões vespertinas de grandes clássicos do cinema a principal opção de lazer. Além de ponto de encontro, era onde a cidade se encontrava, em frente a uma telona.

Inaugurado em 1917, da ousadia do salineiro Florismundo Machado, que trouxe do exterior os equipamentos e o operador, poucos anos depois que Georges Mélies fez da sua ‘Viagem à Lua’ (1902) um marco na linguagem ficcional cinematográfica, o cinema de rua de Cabo Frio sobreviveu décadas, entre altos e baixos, até fechar as portas no começo da década de 2010, sem ter a chance de completar o centenário. Mas o espaço deixou gravadas muitas histórias nas retinas e nos corações das pessoas, como os frames de um longa-metragem em uma película. 

Imóvel de traços arquitetônicos mouriscos recebeu equipamentos cinematográficos

O fotógrafo e memorialista Evangelos Pagalidis comenta que foi no Recreio onde teve acesso a obras de grandes diretores como Federico Fellini; Pier Paolo Pasolini e Ingmar Bergman. Mas, versátil e democrático, o telão exibia obras mais populares, em concorridas matinês.

– As recordações são lindas. O cinema era o grande entretenimento, talvez o maior que a gente tinha na época da minha juventude. Estou com 60 anos e lembro-me de ter visto a Noviça Rebelde; bem pequeno. Os grandes faroestes também, com Giuliano Gemma e o Trinity, com o ‘bangue-bangue spaghetti’ da Itália. Muito sucesso também faziam os filmes de kung fu e o cinema ficava lotado. Mas o cinema nacional, é importante frisar, tinha muita entrada na nossa região, com as pornochanchadas. O divertimento que a gente tinha era o cinema – recorda-se Evangelos.

Os títulos picantes e de cunho sexual, sem dúvida, foram um marco na história da sala, que era considerada uma das mais antigas de todo o estado do Rio, perdendo apenas para o tradicional Cine Íris, na Rua da Carioca. Os fiéis da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, situada exatamente ao lado do antigo cinema, passavam batidos para não perder a missa, nem dar de cara com os cartazes salientes das películas. Àquela época, as celebrações religiosas católicas e a exibição das tramas apimentadas dos anos 1970 e 1980 provocavam a insólita situação de tornar vizinhos o ‘sagrado e o profano’.

Para alívio dos conservadores, o ponto de virada veio em meados dos anos 1990, quando a sala passou a ser gerida pelo grupo do administrador Paulo Henrique Moreira Lima, conhecido na cidade como Paul. Demitido do Serpro, em 1990, após 18 anos de trabalho, Paul decidiu assumir a empreitada junto com os sócios em meados de setembro de 1993. A meta inicial era atravessar o verão de 94 sem falir, mas o que se viu em pouco mais de quatro anos, é que a sala viveu o período que pode ser considerado áureo em termos comerciais.

O Cine Recreio, ao fundo, do lado da Matriz Nossa Senhora Assunção (Reprodução acervo Achilles Pagalidis)

A nova direção mudou o visual do prédio, pintando-o de roxo, e também a programação, então tida como decadente. O marco inicial da nova fase foi a exibição do filme ‘Rei Leão’, que atraiu a criançada e deu o fôlego financeiro necessário para alavancar o projeto de reformulação da sala. Em meio ao lançamento do Plano Real e do programa de estabilização econômica, o Cine Recreio também passou jogos da campanha do tetracampeonato mundial de futebol, nos Estados Unidos.

– Conseguimos uma receita substancial que nos deu fôlego para mudar a programação, reformar o cinema com poltronas novas que, até então, eram cadeiras de madeira e chamar um novo público para o cinema, as pessoas mais criativas e intelectualizadas da cidade. Então criamos um cineclube, que passava, sempre às quartas-feiras, filmes de conteúdo artístico e intelectual. A partir daí, conseguimos entrar de novo no circuito das grandes distribuidoras e então começamos a lançar os filmes no mesmo dia que os grandes centros, como Rio, São Paulo, Belo Horizonte e etc. Então, o cinema começou a dar algum lucro que proporcionou a gente manter as despesas e eventualmente realizar algumas melhorias – relembra Paul.

O auge da nova fase foi em 1997, com a exibição do arrasa-quarteirão ‘Titanic’, de James Cameron. Considerada a terceira maior bilheteria da história do cinema, a dramática saga de Jack e Rose no gigantesco navio, arrastou multidões também em Cabo Frio. Gente vinda de cidades vizinhas, como Arraial do Cabo, São Pedro da Aldeia e Araruama, formava filas quilométricas na entrada. Ao fim do período de exibição do ‘blockbuster’ na sala cabo-friense, cerca de 200 mil dólares entraram nos cofres do Cine Recreio. Em 1998, a administração mudou de mãos, mas Paul fala com carinho do período.

– Foi muito bom, muito legal. Eu particularmente falo que foi um dos melhores anos da minha vida. Não em termos de dinheiro. Eu até ganhei dinheiro, com Titanic, mas foi muito bom em termos profissionais – conta.

Saudoso baleiro Dida, que marcou uma geração, que comprava seus produtos em frente ao cinema (Reprodução acervo Achilles Pagalidis)

Após a mudança, o antigo prédio foi demolido e o cinema ficou cerca de dois anos fechado, até a inauguração da galeria que, atualmente ocupa o espaço no fim da Avenida Teixeira e Souza. A sala continuou a passar filmes do circuito comercial por cerca de mais dez anos, até encerrar as atividades, deixando órfãos os amantes dos cinemas de rua. Ao mesmo tempo, as salas de cinema do shopping foram inauguradas, impondo novos hábitos aos cinéfilos da cidade.

Filme premiado por um dia e programas de auditório

Ao longo de várias décadas, o Cine Recreio também rendeu várias passagens curiosas e ‘causos’, além de ter sido palco de outras atrações, que não apenas a exibição de filmes. Durante os anos 1990, o radialista e comunicador Amaury Valério comandou um programa de auditório no local. 

– A gente fez um programa semanal no Cine Recreio, com entrada gratuita e sorteios de prêmios. O programa se chamava ‘Programa de Auditório’. Fazíamos música e diversão, acima de tudo. A gente tinha competições, dublagens, trabalhava com galeras de escolas. Fazíamos escola contra escola. A gente lotava aquilo lá. Ocupávamos as manhãs de domingo com esse programa por quase três horas – rememora, sem esconder a saudade.

O antigo administrador Paul também abre o baú de histórias. Ele lembra quando exibiu o clássico ‘Casablanca’ (1942) na inauguração do bar do cinema e recebeu um ‘pito’ da distribuidora Warner, que ameaçou chamar a Polícia Federal, por conta da proibição de passar a película. Por outro lado, ele se diverte ao comentar como trouxe para o Recreio o premiado filme australiano ‘Vem Dançar Comigo’ (1992), que só tinha três cópias em todo o Brasil.

– Era de uma distribuidora pequena. Conversei com o cara e ele disse que só tinha três cópias. Perguntei se ele não tinha uma folga numa semana. Ele disse que tinha folga numa quarta-feira, mas que era muito caro. Perguntei quanto é. Naquela época, antes do real, ele virou e falou que custava 100 dólares. Era cotado em dólar para passar um dia. Eu tinha 100 dólares na carteira, puxei e falei “tá pago”. Ele ficou sem graça e disse “tá bom”. Depois fui pegar a cópia e passei o filme um dia, duas sessões. Não ganhei quase nada, mas deu uma alavancada, porque começaram a ver o cinema com outros olhos – diz Paul, que afirma ser abordado até hoje por causa do cinema, mas descarta se aventurar no ramo novamente.

Antigo porteiro Bigode, na entrada do Cine Recreio (Reprodução acervo Achilles Pagalidis)

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