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Cultura

Célio Mendes Guimarães, o semeador de palavras

Aos 91 anos, cabo-friense faz da escrita um ato de amor e dedicação

27 junho 2021 - 12h17Por Rodrigo Cabral
Célio Mendes Guimarães, o semeador de palavras

De que vive o escritor? De folhas em branco e da vontade de preenchê-las de tinta. Para tanto, cultiva-se inspiração regada à disciplina, muita disciplina. Semear as palavras, dia após dia, como quem cuida de um jardim repleto de plantas, flores e frutos, é o ofício de Célio Mendes Guimarães. Enquanto conversa com a reportagem da Folha dos Lagos por telefone, o cabo-friense de 91 anos observa a pilha de livros de sua autoria, dividida em quatro estantes. Em suas contas, nada menos que 318 obras lançadas — a última chama-se “O preço da verdade”, que reúne pensamentos poéticos. E como é que se consegue escrever tanto? Para essa pergunta, anuncia que tem “resposta certeira”:

— Escrevi tanto porque não morri — diverte-se, aos risos, antes de complementar a explicação. — É uma questão de dom, de criação. É bastante divino. A inspiração existe. Precisamos é buscar por ela. Para termos as coisas, temos que lutar.

Vez ou outra, escritores recorrem a Célio em busca de conselhos para a carreira no mercado editorial e de prefácios para suas obras. Certo dia, perguntaram-lhe como conseguir destravar a escrita no meio de uma crise de inspiração. Ele ensina: — O que você está pensando agora? Está pensando em escrever? Ué, então escreva! Não se incomode. Quer escrever sobre a casa em que você nasceu? A árvore que você ficou na sombra, o jardim que você brincou? Bote no papel. “Ah, mas não sei fazer...”. Mas ler você sabe, não é? Vai escrevendo, vai jogando no papel. Quando ver, terá uma porção de coisa. Se não escrever, não escreve — sentencia.

Sem plantio, sem colheita. Dos seus ensinamentos depreende-se que uma simples palavra separa alguns escritores de outros: dedicação.

— Há pessoas que escrevem um livro e ficam naquilo. Eu fui escrevendo, escrevendo, buscando me inspirar... E, por falar em inspiração, a primeira veio de repente, quando auxiliava a filha Susana em um exercício da escola.

— Comecei a escrever meus pensamentos. Um dia, ao chegar da escola, minha filha me falou: “Papai, meu professor passou um dever para mim, uma poesia”. Então, peguei e fiz uma. Fiz a primeira, fiz a segunda, a terceira... Comecei a fazer umas coisinhas muito leves, posso dizer que insignificativas.

A partir dos primeiros escritos, aparentemente “sem importância”, veio um título não tão despretensioso assim: “A importância de um ser”. Tomou mesmo gosto pela coisa.

— Comecei a fazer versos, poesias, romances. Sempre fui um escritor eclético. Faço de tudo um pouco. É por isso que tenho essa diversidade de livros. Não me prendo a um tema só. Quando criança, cursou o primário no Ismar Gomes, no Centro.

Daquela época, lembra-se com carinho do amigo Tonga (in memoriam), que também se tornaria escritor.

— Ele sempre foi inteligentíssimo. Mas nem mesmo a aptidão pelas palavras salvou os amigos de uma reprovação em massa. “Ninguém passou para a quinta série. Ficou todo mundo na quarta”, confessa, Célio. Após perder o pai, ele dividia as despesas de casa com a mãe e sete irmãos. Por isso, teve de trabalhar e não pôde continuar na escola, numa época em que as escolas de Cabo Frio sequer tinham Ensino Médio. Mas o sonho não foi deixado de lado. Se começou a escrever seus livros com cerca de 40 anos, foi também já adulto que veio outra conquista: conseguiu, enfim, completar os estudos. Concluiu o primeiro grau na escola Alex Novellino, aos 45 anos, e o Ensino Médio, no Santa Rosa. Depois, foi direto para a faculdade de Letras (Português – Literatura), na Ferlagos.

— A faculdade me ajudou muito a escrever.

Em casa, ele tem um cantinho especial para isso: uma biblioteca que é utilizada como escritório. Boas ideias podem vir a qualquer hora do dia, durante a rotina, que também incluiu muita leitura — Jorge Amado é o autor preferido (“gosto muito da obra dele”). Às vezes, ele conta, levanta cedo e faz anotações ou esboços de textos e poesias. Em outras ocasiões, vai escrevendo até o sol raiar. As estantes também guardam dezenas de títulos e homenagens que recebeu. Célio Guimarães recebeu em 2011 o título de Cidadão Benemérito do Estado do Rio de Janeiro, concedido pela Assembleia Legislativa (Alerj), por indicação do então deputado Jânio Mendes. Outra de suas inúmeras honrarias é a medalha Victorino Carriço, concedida pela Câmara de Cabo Frio. Além disso, ocupou a cadeira 37 da Academia Cabo-friense de Letras, sendo proclamado recentemente conselheiro da entidade.

A memória está tinindo. De bate-pronto, enumera alguns dos seus títulos, enquanto o tom de voz dá pistas do orgulho que sente pelo caminho percorrido até aqui.

— “Muito além da vida terrestre”, “Um saber foi feito para todos”, “O sossego da alma”, “A esperança do amanhã”, “Quem não divide não ama”, “A marca da igualdade”, “A fonte do saber”, “Na sombra do arvoredo”, “A inspiração é alma do escritor”, “Sem o sol a escuridão domina”, “Quem não perde não ganha”, “O valor da cultura”, “Nem sempre o sol aparece”, “A estrela que caiu do céu”, “O preço da verdade”, “A chegada da inspiração”, “O amante da cultura”... Também estão em dia as lembranças do cenário de uma Cabo Frio bucólica e pacata, que ficou apenas na memória de quem viveu aquela época. Seu lugar preferido na cidade é a Praça Porto Rocha, ainda que tenha passado por inúmeras transformações.

— A praça me traz muitas recordações. Mas tudo foi mudado. Tudo. E não só na praça. Em Cabo Frio, tudo mudou muito. É outra Cabo Frio. É assim: as pessoas vão morrendo, e as coisas vão se modificando. Entretanto, no dicionário do escritor, só não cabe o sentimento de nostalgia.

— Tenho saudade daqueles tempos, mas é uma coisa que passou. O que podemos fazer? Agora é curtir a vida atual, que é boa também. Gosto muito de viver. E faço um esforço grande

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