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Carlos Scliar

Carlos Scliar, o Forrest Gump da cultura brasileira

Acervo de artista gaúcho que morou em Cabo Frio por muitos anos revela muitas histórias 

14 agosto 2016 - 09h25Por Texto e fotos; Gabriel Tinoco
Carlos Scliar, o Forrest Gump da cultura brasileira

Naquele homem que repousa sentado, imerso nos desenhos, havia mais do que papel e tinta. Carlos Scliar (1920-2001) foi um Forrest Gump da cultura brasileira. O pintor se projetou com os modernistas, se alistou à Segunda Guerra, participou da Bossa Nova e do Tropicalismo e elaborou cartazes para o clássico do cinema ‘Rio Zona Norte’ (1960). O retrato da estátua de Scliar em muito se assemelha com o pôster do filme estrelado por Tom Hanks, mas é a casa que atualmente cumpre o papel do contador de histórias. A Casa-Ateliê Carlos Scliar possui enorme acervo do gaúcho.

Muitos turistas procuram a estátua para tirar fotos, mas não conhecem a história do artista. Talvez porque a casa fique de portas fechadas pela falta de um guarda municipal. O espaço tem objetos mantidos na mesma posição deixada por Scliar até hoje. O centro cultural possui muita informação, com a parede revestida por cartas de personalidades, capas de livros, de discos, fotos e um artigo censurado pelo Governo Vargas sobre o salário dos professores. Uma linha do tempo rabisca o chão e situa os visitantes sobre vida e obra de Scliar.

Estátua do artista, que fica no São Bento, é muito visitada

O geólogo Gilberto Machado, 59, mora no Rio e ficou surpreso ao se deparar com a Casa Scliar.

– Estava passando e, por acaso, encontrei a casa. Nem sabia que ele morava aqui. Mas já conhecia o Scliar mesmo sem visitar Cabo Frio. Ele é famoso mundialmente – afirmou.

Por lá, ateliês de artesanato e pintura, biblioteca e cinema. Os dois últimos estão fechados (a biblioteca será arrumada) e a sala espera o retorno da subvenção do governo para poder passar as sessões novamente. Os filmes em cartaz atraíam muita gente ao museu, segundo um funcionário.

Ao lado da porta, o autorretrato de Clarice Lispector evidencia a amizade dos dois com os escritos: “Eu simplesmente gosto de Scliar. Isso é tão simples. Amigos sinceros e honestos”, disse em uma das visitas ao ateliê. Já a sala de cinema foi batizada em homenagem a Nelson Pereira dos Santos – com a assinatura do cineasta na parede. A porta tem uma foto do diretor com um belo texto sobre Scliar. O computador fica no centro do móvel, com um acervo digital ainda em construção.

– Lá em cima era o ateliê dele, onde ficava maior parte do tempo. Trabalhava 24 horas por dia. Tinha ateliês em dois lugares: aqui e em Ouro Preto – conta a presidente do Instituto Scliar, Regina Lamenza.

O artista foi filho de um judeu ucraniano que fugiu do czarismo. Os primeiros passos da carreira foram os livros de histórias infantis – Scliar precisou desenhar e aí percebeu que a principal vocação não era a literária. Na década de 1940, a pedido do amigo Jorge Amado, morou no Rio de Janeiro e visitou Cabo Frio pela primeira vez. Na mesma época, conheceu outro amigo de longa data: Rubem Braga.

Comunista convicto, Scliar se alistou voluntariamente na Força Expedicionária Brasileira (FEB) para combater o fascismo na 2ª Guerra Mundial. No campo de batalha, desenhou soldados – a obra seria publicada como ‘Cadernos de Guerra’ em 1969. No meio do combate, Scliar recebeu de Rubem Braga a notícia da morte da mãe – o episódio foi narrado pelos dois em cartas disponíveis no acervo digital. Em 1953, Scliar faria a capa do livro de Jorge Amado, ‘Seara Vermelha’. Em 1949, o artista lançou um álbum com as ilustrações para a edição francesa do romance.

– Ele dizia que para não enlouquecer, pintou mais de 700 desenhos de guerra. Recentemente, a Embaixada de Londres pediu que a gente doasse 35 desenhos da guerra, porque o Scliar fez uma exposição para ajudar a Força Aérea Inglesa – revela Regina.

Nos anos 50, Scliar retorna para Porto Alegre e participa de um projeto do Partido Comunista Brasileiro: o Clube de Gravura. O grupo queria transformar a pintura numa arte acessível e retratar trabalhadores do campo.

– O clube partia do princípio: a gravura é a melhor forma de democratizar a arte para o povo. Havia o objetivo de resgatar a cultura popular do povo gaúcho, principalmente dos negros. O Scliar fez edições sobre os peões que trabalhavam nas fazendas gaúchas. Havia uma estética realista. Isso aqui é o povo nu e cru – coloca o historiador Paulo Roberto Araújo, que organizou o arquivo digital da casa.

O pintor ainda teria o momento em que marcaria a carreira. Scliar foi chamado pelo jornalista Nahum Sirotsky para trabalhar na parte gráfica da Revista Senhor. O convite rendeu grande fama ao desenhista, além do convívio com grandes nomes da literatura brasileira, como Clarice Lispector e Guimarães Rosa.

Nos meados da década de 60, Scliar finalmente compra o ateliê em Cabo Frio. O artista ainda rodaria o mundo para estudar e fazer exposições. Carlos Scliar morreu em 2001.

– Uma das razões para morar aqui era a luminosidade. A luz de Cabo Frio era especial para ele. A parte de cima do ateliê era o lugar dele. Normalmente, no fim do dia, me mostrava três quadros pintados e perguntava “Filhotinha, qual você gosta mais?”. Trabalhava o dia inteiro. Era um operário da arte – conta a guia Teresa Sanerson.