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LUGARES DE AFETO

Argonautas: o templo da boa música de Cabo Frio

Casa de shows marcou época na cidade, na década de 90, com apresentações da nata da música local e de feras da MPB

14 março 2021 - 09h45Por Rodrigo Branco

Argonauta é o nome que batiza um pequeno molusco marinho, caracterizado por uma bela concha. Já na mitologia grega, o termo define os ocupantes da nau Argo que, sob o comando de Jasão, foi à Cólquida, antigo país asiático junto do mar Negro, em busca do ‘velo de ouro’, que era a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo. Lendas à parte, um antigo bar de Cabo Frio foi o Olimpo para os amantes da boa música em boa parte da década de 1990. Entre 1992 e 1997, verdadeiros semideuses da música popular brasileira vinham com frequência à cidade e fizeram do Argonautas um marco na história da noite cabo-friense.

Medalhões da MPB como Nana Caymmi, Luiz Melodia, Joyce Moreno, Cássia Eller e Lenine, entre muitos outros, arrastavam pequenas multidões ao antigo imóvel até hoje situado na esquina das ruas Major Belegard e Hildebrando Assunção, o que trazia movimento e som ao bucólico bairro do São Bento. De acordo com quem viveu aqueles tempos, não foram raras as vezes em que o público acompanhava os shows da calçada, pelo fato de a casa estar com a lotação máxima. Mas quem viu o sucesso do Argonautas, não imagina que o espaço surgiu quase por acaso.

De acordo com a antiga proprietária Beth Peralta, a sugestão para transformar o que seria exclusivamente uma pousada em casa de shows foi de Maurício Tapajós, célebre instrumentista e compositor, que também era arquiteto. Maurício, que era irmão do também músico Paulinho Tapajós com quem Beth havia namorado e estudado na faculdade, viu no enorme salão o espaço ideal para receber atrações de primeira grandeza, muitos das quais sem cobrar cachê, apenas pelo prazer de estar na cidade praiana. 

– Foram anos turbulentos, deliciosos, com pessoas super interessantes. O detalhe é que eles eram hospedados aqui também, porque a gente tinha a tal da pousada, que era pequena. Nós mesmos morávamos aqui e aí sobravam alguns quartos para os artistas. Assim foi do início até o final – pontua Beth.

O local rapidamente ganhou boa reputação, impulsionado por matérias especiais publicadas pela imprensa da capital. O show de Nana, por exemplo, chegou a ganhar destaque na capa do antigo caderno de variedades do Jornal do Brasil. O público-alvo reunia desde amantes da bossa nova, que puderam acompanhar as apresentações de nomes consagrados como Marisa Gata Mansa e Tito Madi, até a juventude, que lotou a casa para ouvir o violonista e cantor Cláudio Nucci, conhecido principalmente pelo trabalho no grupo vocal Boca Livre.  

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'RESPOSTA AO TEMPO' – Nana Caymmi encantou em sua passagem por Cabo Frio (Foto: Arquivo Pessoal Beth Peralta)

Do cantor e comediante Ivon Cury, recebeu o conselho de promover um karaokê às quintas-feiras, dia da semana que, de uma hora para outra, perdeu público. Ivon emprestou a Beth o equipamento necessário e o êxito da iniciativa foi imediato. 

– Não preciso nem dizer que foi um sucesso estrondoso. A gente teve inclusive que parar com ele porque a rua ficava entupida de gente, e começamos a ficar preocupados com o tumulto que podia estar causando na vizinhança, que com certeza estava – rememora.

O samba também tinha vaga cativa no Argonautas, que recebeu bambas do quilate de Paulo Cesar Pinheiro; Nelson Sargento; Elton Medeiros e João Nogueira, que ficou impressionado com o talento do cavaquinista local Alex Santos, irmão do maestro cabo-friense Alvinho Santos, que faz parte da banda da Alcione.

Por esse motivo, a ‘prata da casa’ também tinha vez no espaço, maciçamente freqüentado pelos intelectuais da cidade. Recém-chegado de Belo Horizonte, o guitarrista Léo Barreto tocou inúmeras vezes na casa, com a sua banda Eternamente Blues. O músico relembra que chegou a ganhar um concurso interno com as bandas que se apresentavam no espaço e fala com carinho da experiência.

– Era uma casa pequena, mas aconchegante. Foi importantíssimo para cidade porque Cabo frio recebia uma galera da pesada, a nata da musica brasileira. E foi importante pra caramba pra mim. Saí de lá para tocar no Estalagem Blues, na Rua das Pedras [em Búzios], que era do Bruce Henry, baixista inglês que tocava com o Ney Matogrosso. Era uma casa nessa linha, de jazz blues e música de boa qualidade – rememora. 

A musicista e cantora Zarinho Mureb também afirma ter as melhores recordações do Argonautas, onde chegou a se apresentar com a mãe e os irmãos. O show da ‘Família Mureb’ também ficou na história da casa de shows.

–Era o máximo, muito legal. Não era tão grande, mas tinha a vantagem que as janelas ficavam abertas e a galera ficava porque não tinha mais lugar para entrar mais ninguém. Impressionante como aquilo não pôde dar continuidade. Talvez tenha sido, em termos de música, o melhor bar de Cabo Frio em todos os tempos – elogia.

Contato direto com os artistas e livro de memórias para guardar

Durante os seis anos de existência do bar, Beth e o marido Dinho tiveram a oportunidade de desfrutar de momentos de intimidade de ícones da MPB. O casal Peralta dividia as cinco suítes do segundo pavimento com cantores e suas equipes. A experiência fez com que os proprietários tomassem contato com artistas de temperamentos distintos, passando da formalidade do sambista Elton Medeiros a Arrigo Barnabé, principal expoente do movimento denominado Vanguarda Paulistana e autor do cultuado disco Clara Crocodilo (1980).

A hospitalidade sempre foi digna de muitos elogios. Beth se recorda que, durante uma entrevista a uma rádio de Búzios o ícone do samba de breque Moreira da Silva teceu loas à acolhida. Divertida, ela lembra que o único senão foi quando o ‘Kid Morengueira’, então do alto dos 90 anos da mais pura malandragem carioca, rechaçou um ensopado de frango preparado com carinho pela equipe da pousada para pedir um prato de camarões fritos.

Memórias da casa foram colocadas em livro por Beth, mas estão restritas à família (Arquivo Pessoal Beth Peralta)

Essa e outras inúmeras passagens, Beth tratou de registrar em um livro de memórias. Contudo, a obra não será publicada e ficará apenas para consulta familiar. A antiga proprietária alega que quer evitar o constrangimento de ser acusada de usar as histórias para se promover. Dessa forma, as lembranças ficarão apenas com quem viveu um dos momentos de maior efervescência cultural na história contemporânea da cidade. Ainda que com problemas para fechar as contas, o Argonautas, recorda Beth, marcou a vida de Cabo Frio até a sua noite derradeira.

– Foi traumático. Tinha um artista chamado Montezuma fazendo show e, depois que acabou, o Dinho chegou no microfone e disse “meus amigos, queria fazer um convite a vocês para que me ajudassem a terminar com esse freezer de cerveja porque essa é a nossa última noite. Isso causou um trauma tão grande nas pessoas que estavam na casa que poucas se arriscaram a beber. Elas ficaram perplexas, tristes, mas acabou terminando mesmo. O que ficou de lembrança é o que estava escrito [no livro] – conta.

No coração e nas mentes do público do Argonautas, o trauma logo se transformou em saudades do tempo em que uma casa de shows ajudava a alimentar a alma do cabo-friense com boa música e momentos inesquecíveis.

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