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Gerson Tavares; 'Antes

Aos 91 anos, Gerson Tavares mostra sua arte atemporal

​Cineasta radicado em Cabo Frio revela bastidores de 'Antes, o Verão', filme rodado na cidade há 50 anos 

29 outubro 2017 - 20h57Por Texto e foto: Gabriel Tinoco
Aos 91 anos, Gerson Tavares mostra sua arte atemporal

Sentado à beira do canal do Itajuru, em sua casa no Portinho, o cineasta Gerson Tavares, 91 anos, aponta em direção à Praia do Sudoeste, na divisa entre Cabo Frio e São Pedro, onde há 49 anos era filmada uma cena de ‘Antes, o Verão’ (1968) – adaptação do romance homônimo de Carlos Heitor Cony, o longa é considerado um dos maiores clássicos do cinema brasileiro. É lá que foi filmada a cena que elege como a sua favorita: entre as casuarinas da Praia do Sudoeste, o protagonista Luis, estrelado por Jardel Filho, faz sexo com uma amante. Por sorte, a passagem escapou do olhar rigoroso dos censores. Afinal, à época, estava em pleno vigor o Quinto Ato Institucional (AI5).

– Gostei tanto que guardei um tronco da casuarina – diz ele, mostrando logo em seguida a recordação para a reportagem. 

Mas a ditadura conseguiu arrancar outros pedaços do longa.

– O mais forte a censura eliminou: o nu completo da mulher no final. Aliás, só o autor do romance já poderia condenar o filme todo.

Na trama, os filhos do casal estrelado por Jardel e Norma Bengell encontram o corpo de um homem atropelado. A partir desse mistério se desenvolve uma narrativa não linear. Em uma hora e vinte, o espectador conhece Cabo Frio com planos abertos da Ponte Feliciano Sodré e do Forte São Mateus.

Meio século depois, uma questão continua em aberto: afinal, quem é o autor do crime? Diante da pergunta, Gerson sorri e lembra que nem mesmo Carlos Heitor Cony, seu amigo pessoal, saberia elucidar o mistério.

– Acho que nem ele (Cony) sabe quem matou. Num bate-bola que aconteceu num evento, certa vez, uma mulher perguntou isso ao Cony e ele respondeu: “eu não sei, pergunta ao Gerson”. Rebati dizendo que também não sabia – rememora, com bom humor, dando apenas uma pista, entretanto:

– O filme termina com a imagem da mulher dele... Recostado na cadeira, Gerson relembra que os militares não foram os únicos obstáculos nas gravações.

Certa vez, o diretor ficou sem o astro do elenco.

– No dia anterior à gravação, o Jardel disse: “amanhã a minha filha vai nascer e não poderei vir”. A equipe estava toda lá, comendo e bebendo. Não poderia perdê-la. Tive a feliz ideia de fazer a cena em que o Jardel não aparece, quando ele é atendido e as pessoas chegam para faxina na casa dele. Não perdi um dia de filmagem – comenta, agora aliviado.

Orgulhoso da habilidade com a câmera em mãos, Gérson destaca outros pontos altos da obra.

– Tenho olhar de pintor e bom gosto para escolher os lugares. Também contava com uma boa equipe. O Roberto Pires era muito bom montador. Às vezes você tem uma história boa, mas o montador pode destruir tudo. Não foi o que aconteceu. O filme é todo narrado em flashbacks e tem um flashback dentro do outro, feito uma sanfona – poetiza o cineasta.

O diretor também era contemporâneo do Cinema Novo – influenciado pelo Neorrealismo Italiano e pela Nouvelle Vague francesa, o movimento tinha a proposta de retratar filmes com mais realidade e menor custo. Gérson, no entanto, diz que nunca foi reconhecido pelos colegas.

– Nunca me reconheceram como parte do movimento. É uma panelinha, onde só eles faziam os filmes – dispara.

Apesar da mágoa com alguns integrantes do movimento, o cineasta não deixa de lado a amizade com Nelson Pereira dos Santos, diretor de obras como ‘Vidas Secas’ (1963) e Rio 40º (1955).

– O Nelson era um lutador danado. Conseguia fazer filmes com pouquíssimo dinheiro. É o paulista mais carioca que existe – opina.

Antes, a pintura

O percurso para as telonas foi de muito esforço. O cineasta nem sempre quis saber da película. Na verdade, o primeiro contato com a arte foi através da pintura. Quando ainda era jovem, Gerson ganhou uma bolsa de estudos na Europa pelo bom desempenho na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1953, desembarcou em uma Europa devastada pela Segunda Guerra. E, como uma cena memorável, uma imagem desse período insiste em não sair da sua mente.

– A Europa era pobre e em preto e branco. Quando cheguei à Alemanha e subi na Catedral de Colônia, vi uma cidade toda destruída – rememora.

O cinema europeu – assim como o japonês de Ozu e Akira Kurosawa – rodava o mundo inteiro ao lado de nomes como Ingmar Bergman, Fellini e Truffaut. Ao se mudar para Paris, o brasileiro observou o filme ‘O Cangaceiro’ (1953), do diretor Lima Barreto (xará do famoso escritor), em cartaz há seis meses.

– Frequentei cinemas e vi muitos museus. Nunca encontrei um quadro brasileiro lá fora. A pintura estava moribunda. Mas vi esse filme há seis meses em cartaz. A arte daquele século seria o cinema, como a arte do século XIV foi a Renascença – pondera.

Morando na Itália, onde estudou cinema, Gerson viu no diretor Michelangelo Antonioni uma grande inspiração. Outro ponto alto de sua estada no país, ele lembra que foi o encontro memorável com a deslumbrante Sophia Loren, vencedora do Oscar de Melhor Atriz de 1962 pela atuação em ‘Duas Mulheres’ (Vittorio de Sica). Pouco antes da entrevista acabar, Gerson finalmente entra em casa. Na parede da sala, um autorretrato. E, por ali, entre suas aquarelas e uma verdadeira sala de cinema improvisada em um closet, faz um breve resumo das artes que moldaram sua vida.

– O bom da pintura é que se faz sozinho. No cinema, você fica com, no mínimo, doze pessoas atrás de você – brinca.