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'A Ilíada': Epopeia clássica em montagem pop

Creche na Coxia apresenta a peça neste fim de semana

16 maio 2015 - 16h00Por Rodrigo Branco
'A Ilíada': Epopeia clássica em montagem pop

POR RODRIGO BRANCO

Se há uma coisa que se mantém atual nos últimos vinte e oito séculos, período presumido desde o registro da obra original por Homero, são os conflitos por riqueza e poder. Amores, traições e cobiça são elementos universais e de forte apelo dramatúrgico desde os primórdios do teatro clássico. E é justamente o desafio de transpor essas questões, em linguagem palatável ao grande público, e sem o hermetismo que caracteriza as obras dessa natureza, a proposta desta bem-sucedida adaptação da Companhia Teatral Creche na Coxia, feita pela dramaturga e diretora Silvana Lima, em cartaz no Teatro Municipal de Cabo Frio, neste fim de semana.

Sem apelar para o humor barato, Silvana abre concessões para uma linguagem mais coloquial e contemporânea, com a utilização de ‘gags’, sobretudo quando se utiliza do recurso do coro e em alguns diálogos. Aos momentos que privilegiam uma direção mais naturalista, sucedem-se outros, de impostação solene, característica do teatro clássico. O acerto é evidente. O público acompanha com interesse, e muitas risadas, a trama em cerca de uma hora e meia nada cansativas de espetáculo.

Muito dessa identificação acontece pela opção de se fazer uma montagem de acento pop. Méritos da cenografia composta por uma estrutura feita de andaimes com tablados de madeira, cortinas e adereços cênicos, como máscaras e escudos estilizados. Todos esses elementos se incorporam organicamente às cenas resultando num conjunto visual agradabilíssimo, principalmente quando todo o elenco está em cena. A eficiente preparação corporal de Viviane Antunes garante a flexibilidade e a simetria dos movimentos dos artistas e faz com que braços, pernas e corpos sobrepostos se transformem em bigas, armas e embarcações.

Nesse sentido, é preciso destacar os figurinos de Silvana Lima e Luciano Paiva, que garantem a leveza necessária para a movimentação, sem perder de vista o esmero visual e a adequada caracterização. Por sua vez, tanto a música de Dio Cavalcanti e Ivan Alves como a iluminação de Gustavo Weber pontuam dramaticamente a narrativa de forma precisa, com destaque para a projeção de sombras sobre as cortinas.

Mas o ponto alto da produção, sem dúvida, está no jovem elenco de oito atores, do qual Silvana consegue extrair um rendimento homogêneo, em alto nível, com igual carga de expressividade, fato que de forma alguma apaga os momentos de brilho solo. Ainda assim, é possível destacar as presenças de Débora Diniz (Helena/ Hera); Viviane Antunes (Penelope/ Afrodite/ Heitor); Ravi Arrabal (Aquiles/ Tíndaro) e, especialmente, Rodrigo Rodrigues (Ulisses/ Éris), em todo o seu esplendor criativo.

Enfim, um espetáculo de alta estirpe que enobrece a temporada teatral cabofriense. E certamente, uma produção abençoada pelos deuses.

Serviço: 'A Ilíada'
Teatro Municipal de Cabo Frio
Sábado e domingo, 20h
Ingressos na bilheteria: R$ 20 (meia: R$ 10)