Parte significativa da nossa história morreu. Queimada. Dilacerada. Ao vivo, inertes, assistimos o avançar das chamas sobre o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista. Era o Museu Nacional. O nosso museu. Nossa história, nossa identidade. O Museu Nacional, agora, oco.
Seguimos a sina. Nasce história enquanto morre história. Mas o que se produzirá de memória da catástrofe de domingo senão um inconfundível atestado de incompetência? Dói. E nada mais simbólico do que a imagem de um jato d’água insosso disparado enquanto a construção já era lambida de cima abaixo pelo fogo.
Dói porque é nosso retrato mais feio. Sem retoques, sem maquiagens. O retrato do descuido, da falta de interesse e de investimentos na manutenção de bens culturais.
A fogueira é soberana em sua inquisição.
Retirar da catástrofe o seu sentido político é matar a história mais uma vez. Que se observe o montante destinado ao museu nos últimos anos: R$ 98,1 mil (2018), R$ 643,5 mil (2017), R$ 841,1 mil (2016), R$ 638,2 mil (2015), R$ 941 mil (2014), R$ 979,9 mil (2013). E que reflitamos sobre uma pertinente comparação: em 2017, o museu recebeu o equivalente a 15% dos salários brutos dos ministros do Supremo Tribunal Federal, segundo dados da Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados.
Isso é justiça?
Há três meses, o espaço, que foi residência da corte portuguesa, completou 200 anos. Há três meses, era anunciada a chegada de R$ 21,7 milhões, via acordo assinado com o BNDES. No contrato, estava previsto para outubro um projeto de combate à incêndio.
O recurso veio tarde. E de tão tarde fez-se o nunca. Para outubro, só nos resta outro capítulo desta história: eleições. Será possível fazer da ruína uma nova construção?




