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Coluna

Utopia

08 agosto 2022 - 10h40

Thomas More (1478 – 1535), filósofo e escritor inglês, escreveu a consagrada obra literária “Utopia”, que foi publicada em 1516. Nela ele descreve uma república imaginária, uma ilha, governada pela razão, contrastando com a realidade da época, não muito diferente dos dias atuais, onde os valores se invertiam; a corrupção alavancada pelo dinheiro sujo e a busca pelo poder a qualquer custo eram costumeiros. Para More, o administrador que não é corrompido tem melhor desempenho, razão pela qual no seu livro, dinheiro e riquezas dão coisas supérfluas. Nessa ilha imaginária, o Estado é perfeito, tanto na concepção política quanto econômica, e a religião exerce o seu papel de ligação dos homens com Deus, sem proselitismo ou discriminação.

Utopia é uma palavra de origem grega, significando “não lugar” ou "lugar que não existe”, que pode ser definida como “descrição imaginária de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade”. Na verdade esse “lugar que não existe” poderia existir, não fossem a ganância, a vaidade, a prepotência e o orgulho dos homens. Ao observarmos o discurso de campanha de alguns candidatos a cargos eletivos para o Legislativo no  rasil, parece que estamos em um país de utopia. Prometem que vão resolver todos os problemas, vão fazer isso, aquilo, etc., quando na realidade legisladores só podem apresentar projetos, reivindicações e votar. Nãotêm poder executório. E os postulantes a cargos executivos? Candidatos a prefeito, governador e presidente, em campanha, prometem de tudo, transformar o país, erradicar a fome e as desigualdades sociais, salários justo e emprego para todos, enfim, cumprir o que preconiza a Carta Magna do País. Mas, uma vez no poder, todos aqueles discursos não passarão de promessas não cumpridas.

O sistema administrativo de governo vigente em nosso país permite que se alcance um estágio de perfeição na gestão das coisas públicas e comprometimento com a missão do Estado em promover o bem-estar dos cidadãos. Observando o primeiro estágio, que é o municipal, passando para os Estados Federativos e o Governo Federal, temos instrumentos perfeitos, que se fossem corretamenteutilizados permitiriam alcançar esse objetivo. Começando pelo PPA (Plano Plurianual), que é um programa para quatro anos de governo, onde são previstas todas as ações a serem executadas. Normalmente esse plano é feito com a participação popular em audiências públicas. Segue-se a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), em que se define as prioridades para um determinado exercício dentro do que foi previsto no PPA, e a LOA (Lei Orçamentária Anual) que é efetivamente o orçamento, instrumento que viabiliza a execução de um plano de trabalho para um determinado exercício, devendo ser aprovada pelo poder Legislativo, que em tese representa o próprio povo.

Roberto Campos (1917 – 2001), economista, escritor e político brasileiro, disse certa vez que: “Nossa Constituição é uma mistura de dicionário de utopias e regulamentação minuciosa do efêmero”. Efetivamente, a Constituição de 1988, no artigo 3º, estabelece que são objetivos e obrigações do governo: I) construir uma sociedade livre, justa e solidária; II) garantir o desenvolvimento nacional; III) erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV) promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. E ele completa com outra citação que nos traz à realidade: “Nossa Carta Magna é intervencionista no econômico, utópica no social e híbrida no político”.

Há, efetivamente, um imenso abismo entre o que está escrito e o que é praticado. Falta, evidentemente, moralidade e honestidade por parte dos detentores dos cargos públicos. Citando novamente Thomas More, ele disse: “A prosperidade ou a ruína de um Estado depende da moralidade de seus governantes”.

Entretanto, não é somente na área pública que observamos esse tipo de comportamento. O que deveria ser modelo da perfeição, síntese da utopia, a religião transformou-se num corolário de interesses, vaidades e luta por poder, exercidos por dirigentes de milhares de igrejas denominacionais que “vendem” o paraíso para incautos seguidores, desde que, evidentemente, entreguem seus dízimos. A respeito dessa forma de agir,

Karl Marx (1818 – 1883) assim escreveu: “A religião é o ópio do povo”. Pelo que se vê do atual modelo político, praticado em todo o mundo, continuaremos, ainda, a sonhar com uma sociedade justa, fundamentada em leis justas, comprometida com o bem-estar da coletividade, vivendo uma utopia.

Resta ficar com Mário Quintana (1906 – 1994), poeta e jornalista brasileiro, que assim escreveu: “Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las... Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas”.

(*) Clésio Guimarães é empresário, professor, administrador de empresas e representante do Conselho Regional de Administração (CRA).