Este texto seria sobre felicidade. Depois, propuseram-me alguns rabiscos sobre a palavra da moda: ranço. Os temas ficaram para depois. É que estas linhas preferiram encontrar morada em lugares de idas e vindas, de abraços e despedidas, de sorrisos e lágrimas: terminais rodoviários, estações de trem e aeroportos, especialmente.
Que seja breve a estada, pois tem pressa o redator.
Há uma mágica silenciosa nesses espaços, mas que grita a quem quiser observá-la bem. Penso até: pode ter vindo dessa coisa instigante a inspiração de J.K Rowling, a autora de Harry Potter, para fantasiar a plataforma 9 ¾ da estação King’s Cross, em Londres, onde seus personagens passam pela parede para pegar um trem rumo à escola de bruxaria de Hogwarts.
Mas falo sobre mágica real. Do cotidiano – que, muitas vezes, pode ser mais fantástico do que as mais mirabolantes ficções.
Há mágica nesses espaços porque cada pessoa que chega e parte carrega um universo particular, com dramas e aventuras, conquistas e fracassos, prazeres e desprazeres. Ah, quanta história há no fluxo dos terminais, estações e aeroportos...
Há as chegadas e partidas de rotina – embora também haja na rotina muito sobressalto: o ônibus que não passa, o trem enguiçado, o voo cancelado de última hora. E, também, as chegadas e rotinas que são como que capítulos de um livro: a ida para uma longa viagem, a mudança de cidade, a busca por novos territórios e encontros....
Quando não é para ser um singelo “até logo”, a passagem vem carimbada com um punhado de sofrer.
Vez ou outra, mudar é preciso. Arrumar as malas e deixar para trás tudo que é velho é preciso. Despedir-se do que outrora foi fonte de felicidade é preciso. Projetar-se para o novo, reencontrar-se numa nova jornada, escrever-se como protagonista de sua própria vida: tudo isso é preciso. Mas dói. Dói que é uma beleza.
É uma dor auspiciosa, no entanto. Porque tem de ser sentida.
É o alerta de que estamos vivos. Afinal, sentimos. Sentimos porque somos de carne e osso, porque nos importamos, porque somos humanos. Nos terminais, nas estações, nos aeroportos, paira no ar essa simbiose entre alegria e tristeza. A dicotomia perfeita de um mundo que precisa girar.
Nos terminais, nas estações, nos aeroportos, paira no ar isto que guiou tantos clássicos do cancioneiro popular. Vinícius de Moraes, com toda sua sabedoria, nos ensinou: “Depois da chegada, tem sempre a partida, porque não há nada sem sem separação”. Milton Nascimento também embarcou: “Todos os dias é um vai-e-vem, a vida se repete na estação, tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais”.
Pois é. Também temos, em nosso íntimo, terminais, estações, aeroportos. Para que não percamos os rumos para este destino chamado vida, importante é saber a hora certa de de comprar a passagem só de ida. De derramar o pranto aqui para colher o sorriso lá na frente. De seguir em frente, simplesmente. E que a decisão seja pontual, para hoje. Senão, é como avisava Adoniran Barbosa: “Se eu perder este trem, que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã”.




