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Sobre o fim da Ler & Ver

Dizem por aí: de solidão nunca padecerá quem aprende a tocar instrumentos musicais.  Acrescento por aqui: de solidão nunca  padecerá quem escolhe um livro como bom companheiro. Pode ser uma obra densa como sinfonia clássica, radiante como clássico da  pop

14 agosto 2018 - 13h02

Dizem por aí: de solidão nunca padecerá quem aprende a tocar instrumentos musicais. 

Acrescento por aqui: de solidão nunca  padecerá quem escolhe um livro como bom companheiro.

Pode ser uma obra densa como sinfonia clássica, radiante como clássico da  pop music ou despojado tal qual a malandragem entoada nos sambas de raíz.

Seja qual for o ritmo, timbre e afinação, literatura é vida, porque recria a vida em camadas, cores e possibilidades nunca antes imaginadas.

Bem, este é o trabalho do escritor. E o leitor? Ah, ao leitor cabe apenas se permitir ser guiado rumo ao desconhecido, como o ‘Timoneiro’ de Paulinho da Viola: “quem me navega é o mar”. E há muito a ser descoberto no horizonte.

Em Cabo Frio, ainda que agosto seja de ventos fortes, o anúncio do encerramento das atividades da Ler & Ver traz previsão não tão agradável: calmaria total, neblina, péssima visibilidade.

À deriva, órfãos da tradicionalíssima livraria situada na Rua Raul Veiga,   os leitores de Cabo Frio ficam um pouco mais solitários. Na verdade, ao perder um de seus estabelecimentos mais tradicionais, Cabo Frio está ficando mais solitária.

Há não muito tempo, sob nova gestão, a Ler & Ver reabriu as portas com a altivez de uma marca de 50 anos de história. Tudo reformado, bem ajeitado, com direito a um caprichado café no segundo piso – onde, tempos atrás, muito antes da internet e das facilidades do Youtube e Netflix, funcionava uma das locadoras mais concorridas da cidade.

Mas, no meio da travessia, que prometia ser gloriosa, havia a crise. A crise que todos conhecem  e, mais especificamente, a do mercado editorial, que encolheu 21% de 2006 a 2017, segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). 

 Perdemos a Ler & Ver. Mas navegar é preciso:  nós precisamos dos livros – e eles, mais do que nunca, de nós. Avante.