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Coluna

Síndrome do escravo satisfeito

25 agosto 2023 - 10h19

Uma das páginas mais tenebrosas da nossa história teve como escopo a escravidão indígena e negra. De 1530 a 1888, o Brasil praticou uma perversa e cruel política econômica com utilização de mão de obra escravizada, onde atrocidades foram perpetradas contra índios e negros trazidos, principalmente, da África. Era impingida toda espécie de humilhações e castigos desumanos. Em 13 de maio de 1888, através da Lei Áurea, a princesa Isabel pôs fim a essas atrocidades. Cerca de 700 mil escravos foram libertos, alguns regressaram a seus países de origem, a maioria ficou sem destino e uns poucos optaram por voltar aos seus locais de trabalho e escravidão. Este fato suscitou curiosidades de pesquisadores que passaram a estudar os sintomas que estas pessoas apresentaram, pois apesar da vida miserável que viviam, não apenas se resignaram, mas também expressaram sentimento de gratidão em relação a quem os tinham mantidos em situação de escravos.

Mas, uma nova forma de escravidão foi gradativamente incrementada, agora não mais através do segregamento físico, mas do psicológico, econômico e social, onde as pessoas ficam presas a conceitos, modismos e outras práticas. O novo escravagista tem nome: “Capitalismo”. Étienne de La Boétie (1530 – 1563), filósofo e humanista francês, deixou-nos uma citação curiosa: “Atrair o pássaro com apito, ou o peixe com a isca do anzol é mais difícil que atrair o povo para a servidão, pois, para enganar o povo, basta passar-lhes junto à boca um engodo insignificante. É espantoso como eles se deixam levar pelas cócegas”.

Após a Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, muitas técnicas administrativas foram desenvolvidas para incentivar o consumo, a produção precisava ser vendida, em proporção geométrica. Um dos instrumentos surgidos e largamente utilizado foi o “marketing”, cujo objetivo era descobrir necessidades dos consumidores, criar bens e serviços para satisfazê-los e fidelizá-los.  Pronto! Foi institucionalizada a escravidão capitalista pelo consumo.  Jean Jacques Rousseau (1712 – 1778), filósofo e escritor francês, dizia que: “O dinheiro que temos é o instrumento da liberdade; aquele de que andamos atrás é o da servidão”.

A dependência por determinados tipos de bens é impressionante. Quem hoje consegue viver sem um telefone celular? Alguns tipos de medicamentos, cosméticos e produtos de beleza, bebidas e outros produtos, exercem poder sobre as pessoas, criando uma situação de dependência escravizante, mas que as deixam felizes. Um exemplo é o dia 22 de setembro, conhecido como o “Dia Mundial Sem Carro”. Esta data visa conscientizar o mundo a respeito da preservação do meio ambiente, fato vital para preservação das futuras gerações. Mas, quem consegue ficar sem carro? Será que alguém, principalmente aqui em nosso país, percebeu a existência dessa campanha? E o que falar sobre aumentos abusivos de determinados produtos? Se os consumidores deixassem de comprar, simplesmente os preços seriam reduzidos como consequência da lei da oferta e procura. Entretanto, o poder escravizante dos hábitos de consumo não permite, e continuamos subjugados ante a força do capitalismo dominante.

Na área política tal fenômeno se acentua, pois aceitamos as mazelas cometidas por governantes insensíveis às necessidades da maioria. Quem é submetido à humilhação de mofar horas em uma fila para receber um direito; quem tem que esperar meses para um exame médico; quem é excluído da distribuição de rendas que ajudou a gerar, e outras situações do mundo moderno, é um escravo satisfeito, pois continua mantendo a cabeça baixa sem expressar sua opinião.