Embora cada um seja diferente à sua maneira, todos nós possuímos traços em comum ou, ao menos, traços que se repetem de forma notável em boa parte dos indivíduos. Com os homens não é diferente: a psicologia, a mídia e as mulheres sabem bem que os homens desejam sexo e poder, uma vez que a posição do sujeito na hierarquia masculina é calculada a partir do nível desses dois elementos em suas vidas, elevando ou rebaixando os homens em suas estranhas competições motivadas sabe-se lá pelo quê contra sabe-se lá quem.
Mas o que nem todos sabem, pois os homens escondem isso muito bem, é que receber gestos de carinho e cuidado são desejados mais do que quaisquer cifras, conquistas patrimoniais ou mulheres nuas, uma vez que estes brotam da espontaneidade do afeto legítimo que existe por si só e nada cobra em troca, tomando o homem de assalto, envolvendo-o numa esfera de ternura e cuidado raramente experienciada, deslocando-o de si mesmo e de suas pequenas e limitadas percepções da realidade calcadas na ideia de que tudo se baseia na troca ou no fazer por merecer.
De todos esses gestos simples, despretensiosos e lotados de significado e carinho, gostaria de destacar um a título de exemplo: o bolinho de cenoura feito em casa, com aquela calda de chocolate que penetra em todos os poros da massa e a deixa molhada e suculenta. Algo dessa natureza, feito por quem te respeita, ama e admira verdadeiramente, não tem preço. Não é algo que se compra, mas sim que se conquista. Um bolinho simples, mas capaz de desarmar qualquer homem atento ao valor do gesto, sendo um alento à sua alma conturbada e cansada. Se isso fosse de conhecimento geral, afirmo: os estresses em ambientes de trabalho sumiriam, as torcidas organizadas se tornariam mais pacíficas e as guerras cessariam.
O que quero demonstrar a partir dessa imagem simples e cômica (mas que também possui seu valor de verdade) é o fato de que há um imenso significado e simbolismo em coisas que, muitas vezes, nós não damos a devida importância. Coisas que não chamam a atenção de imediato, pois escondem seu valor em camadas (e coberturas de chocolate) que são desveladas aos poucos, a partir da atenção e do olhar atento; coisas que, contrariando a singeleza de sua imagem, marcam um lugar imenso e singular na memória; coisas que não fazem alarde, que não demandam pirotecnia, técnicas absurdas de marketing e que não se preocupam com lucro ou escala comercial. Coisas que existem por si só e que cumprem muito bem sua finalidade.
No fundo, todo homem sabe que, embora sexo e poder sejam coisas desejáveis pelos prazeres e status que evocam e provocam, o estresse que causam muitas vezes não compensa a desenfreada busca que demanda um árduo empenho de energia e foco. Por sua vez, as coisas gratuitas subvertem essa lógica de competitividade, selvageria e luta, uma vez que se apresentam de maneira espontânea e sem pedir nada em troca. É nessa hora que o homem pisca os olhos e percebe como sai caro descontar suas questões emocionais mal resolvidas na manutenção da vaidade e na busca pela validação vinda de homens adoentados. Seria bem melhor um bolinho de cenoura.

