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Coluna

Reduflação

11 junho 2022 - 08h00

Originária do termo em inglês “shrinkflation”, resultado da aglutinação de “shrink”, que significa reduzir, encolher, com “flation”, significando inflação, Reduflação é o fenômeno econômico que ocorre quando os produtos diminuem de tamanho ou quantidade e o seu preço se mantém inalterado. É uma forma de maquiar o produto com o objetivo de obter mais ganhos ou maximizar lucros.

Na verdade, as empresas podem, legalmente, reduzir tamanho ou quantidade dos seus produtos, mas desde que sejam corretamente informados o consumidor, conforme deliberação do Ministério da Justiça (Portaria nº 81 de 23 de janeiro de 2002) e previsão no Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078 de 11 setembro de 1990). A Portaria nº 392 de 29 de setembro de 2021 do Ministério da Justiça regulamentou a autorização anterior, estabelecendo que: 1º) O fabricante do produto deverá indicar a mudança; 2º) Deverá informar em local de fácil visualização com caracteres em caixa alta e em negrito, em cor contrastante com fundo do rótulo; 3º) Tempo, é preciso manter a informação no rótulo durante um prazo de no mínimo seis meses.

Com isso, institucionalizou-se a maquiagem oficial, uma vez que essa estratégia não causa impacto na apuração dos índices de inflação nacional, pois se trata de uma adaptação da oferta à pressão inflacionária. Esse fenômeno é perfeitamente perceptível em produtos embalados, não sendo bem acolhida pelos consumidores mais atentos que reparam na diferença do rendimento em relação ao preço e nas formas de apresentação e padrão dos mesmos.

Poucos consumidores leem rótulos, uma grande maioria compra por instinto, por percepção da imagem da embalagem do produto. A embalagem do leite condensado Moça, por exemplo, é uma figura que já está na mente do consumidor. Aí, a Nestlé lança o “Leite Condensando Moça para toda a Família”, com mistura láctea condensada de leite, soro de leite e amido, com o rótulo semelhante ao do Leite Moça feito com leite condensado original. Quem não ler o rótulo vai comprar um produto inferior por praticamente o mesmo preço do tradicional.

A Fiat Lux lançou uma caixa de fósforos com 200 palitos, enquanto a formatação anterior continha 240. É certo que a empresa cumpriu a lei ao fazer constar na caixa a seguinte observação: “Fiat Lux, novo conteúdo: de 240 agora com 200 palitos de fósforos”. Entretanto, o preço é o mesmo da embalagem anterior, o formato e cores são iguais, logo o consumidor é induzido a achar que está comprando o produto com a idêntica quantidade.

O sabão em pó Omo teve sua embalagem reduzida de 1Kg para 800g. O tamanho da caixa é o mesmo, bem como as cores e informações, além do preço.

Um caso clássico de redução de custos foi a solução apresentada pela empresa aérea americana American Airlines. Em 1966, seu presidente, Bob Crandall, mandou que se retirasse uma azeitona da salada de cada refeição servida nos seus voos. Essa medida resultou em uma economia de US$ 40.000 por ano, sem que os usuários da aérea percebessem.

Outro caso muito conhecido é o da empresa Colgate, que, desejando aumentar suas vendas, determinou que o orifício por onde sai a pasta de dente fosse aumentado em 30% do seu diâmetro. Com isso, os consumidores passaram a consumir mais. E os casos se sucedem, como a diminuição das barras de chocolates, os refrigerantes com um percentual maior de água, pacotes de biscoitos com menor número de bolachas, etc. E há ainda as maquiagens fraudulentas. Quem já mediu um rolo de papel higiênico para saber se realmente contêm os 50 metros indicados? Quem já contou as ervilhas contidas em uma lata? E o que falar dos medicamentos embalados em bisnagas, tipo pomadas, em que o tubo vem com mais ar do que produto?

Razão tinha Machado de Assis (1839 – 1908), renomado escritor brasileiro, ao dizer que “O capital existe, se forma e sobrevive à custa da sociedade que trabalha e nem sempre é recompensada pelos lucros que gera”. A alienação da sociedade ante essas práticas é a razão pelas quais muitas empresas continuam adotando estratégias para alavancar mais lucros nas costas do combalido consumidor.

“É impossível corrigir abusos, a menos que saibamos o que está acontecendo” (Julian Assange, jornalista e criador do site WikiLeaks). Realmente, poucos percebem o que está acontecendo.

(*) Clésio Guimarães é empresário, professor, administrador de empresas e representante do CRA-Conselho Regional de Administração.