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Coluna

Privilégio branco? Racismo inverso?

11 janeiro 2021 - 10h41

Será mesmo que nós, brasileiros, entendemos realmente a nossa própria história? É matéria obrigatória nas escolas, mas estudamos de forma a entender como nosso próprio país funcionou e funciona até hoje? Muitos brasileiros chegam a negar a existência do racismo, muitos até falam em racismo reverso. Mas o que é isso? Nós, brancos, passamos uma vida inteira passando por situações diversas de violência emocional e psicológica apenas por sermos... brancos?

Não sou especialista no assunto e entendo o meu lugar de fala, branca e privilegiada de classe média. Não sou professora de história, tudo o que eu estudei foi o que a maioria estudou nas escolas. E sou sim, ainda, racista em desconstrução. Pois, por mais que eu entenda, leia sobre o assunto, siga pessoas pretas na internet que falam diariamente sobre seus problemas, eu não passo pelo que eles passam e posso apenas tentar entender, e mesmo assim, dentro dos meus preconceitos enraizados.

Não fui eu quem invadiu o Brasil escravizando e matando índios, também não fui eu que invadi um continente raptando, sequestrando milhares de homens, mulheres e crianças pretas para usar como mão de obra escrava. Não chicoteei, estuprei, torturei e matei o povo preto por me achar superior apenas pela minha cor. Por achar que por serem pretos mereciam menos. Não usurpei sua cultura e distorci toda a sua religião. Não, eu não fiz nada disso, mas nasci branca. Branca, numa sociedade que, após o fim da escravidão, não deu chance àquele povo. Afinal de contas, a escravidão pode ter virado crime, mas o preconceito não se esvaiu com ela como num passe de mágica. Eles ainda eram excluídos de uma sociedade que não os queria ali. Eles não tinham o mesmo acesso a trabalho e estudo como qualquer branco.

Eles não tinham casas, eles não tinham nada. Saíram de um estado de tortura, para outro estado de tortura. Desde lá, muitas pessoas podem achar que tudo mudou, que hoje em dia eles têm tanto espaço quanto qualquer outra pessoa, se “apenas” se esforçarem. Disse o branco, nascido numa família branca, que estudou em escola particular, teve sua faculdade paga com ajuda dos pais. Para meninos e meninas pretas, nascidos em grande maioria nas favelas e periferias, em situações precárias do mínimo, como água e luz. Com acesso às escolas públicas sucateadas pelo governo, tendo que trabalhar desde muito pequenos pra ajudar em casa, cercados pelo tráfico, mortos constantemente por um estado que não se importa em perguntar antes de atirar.  

Cento e trinta e três anos depois de uma falsa liberdade que pode parecer muito, mas, se você parar pra pensar, são em torno de quatro gerações, comparadas há quantas gerações de brancos que enriqueceram com o trabalho escravo? A sociedade ainda pega casos mínimos de pessoas negras que tiveram ascensão social pra usar de exemplo, como se isso fosse um padrão. Mesmo depois do esforço inenarrável para clarear a população brasileira, negros são mais de 50% de todos nós, mas não tem nem 10% dos mesmos acessos. Mas insistem em dizer que existe racismo reverso. 

Já ouvi de uma pessoa muito próxima que ela havia sofrido racismo por ter sido chamada de... “branquela”. É sério? Enquanto pretos são julgados pelos seus cabelos, pela sua cultura, pela sua religião, modo de falar, cor... Enquanto pretos são mortos diariamente no brasil por serem pretos. A gente ainda vai continuar com essa história de racismo reverso? Meritocracia? Realmente, nossa sociedade está doente. Sempre esteve. Sempre vai estar?