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Coluna

Poder econômico

13 março 2022 - 12h30

Friedrich August Hayek, economista e filósofo austríaco (1899 -1992), disse certa vez que “o poder econômico, centralizado como instrumento de poder político, cria um grau de dependência, que mal se distingue da escravidão”.
Desde tempos imemoriais, o homem busca poder baseado nas riquezas. O combustível da economia é a moeda, representada pelo dinheiro em suas diversas bandeiras. Por dinheiro Judas traiu Jesus; por dinheiro o homem tem matado seu semelhante; por dinheiro o homem tem vendido sua própria alma. Certa vez, o dono da primeira empresa em que trabalhei, ao longo de uma conversa sobre dinheiro, perguntou-me: “Quanto tens no bolso?”  Respondi quanto tinha, e ele retrucou: “Pois é isso que vales”. Lição um tanto quanto dura, mas real. Na sociedade em que vivemos, valemos o que temos.                                                                                        

 Uma parábola muito conhecida, registrada na Bíblia, fala a respeito de um jovem que resolve sair da casa paterna. Chega perto do pai e diz: “Pai, dá-me minha parte da herança que vou correr o mundo”. Muito entristecido, o pai entrega-lhe seu dote. E ele vai para outro país bem longe. Lá, começa a gastar seu dinheiro de forma dissoluta, sendo alçada a uma posição de destaque na sociedade local, e logo uma legião de “amigos” passa a cercá-lo. O tempo passou, e como só gastava, chegou o dia  que o dinheiro acabou. O poder termina, chega ao fim, todos os amigos se afastam, é despejado de seu alojamento e chega ao ponto de nem ter com que se alimentar. A história prossegue, contando que ele volta para casa humilhado, sendo recebido pelo pai que o acolhe.

 Max Weber (1922, p 33) apresenta um clássico conceito de poder ao asseverar que: “Poder significa toda possibilidade de impor a vontade numa relação social, mesmo contra resistência, seja qual for o fundamento desta probabilidade”.
 Mas o que a parábola nos ensina é que aquele jovem só tinha poder e prestígio em função do dinheiro que possuía. Refletir sobre essa cruel realidade nos faz pensar que o homem deixa de ser homem por não possuir dinheiro. Vivemos num mundo onde predomina o sistema capitalista; pessoas são somíticas e arrogantes.

José Saramago (1922 – 2010), escritor português, deixou-nos uma frase instigante. Disse ele: “O que chamamos de poder político, converteu-se em mero comissário político do poder econômico”. Efetivamente, poder político e econômico se fundem em uma metamorfose perigosa. Países ricos exploram os mais pobres, sugando-lhes o que têm de mais valioso. É o que de certa forma acontece com o Brasil. Ao analisarmos nossa pauta de exportações, constatamos que os produtos mais vendidos são “Commodities”, ou seja, matérias primas, estoque de reservas que um dia nos farão falta. Em 2021, os itens mais exportados foram: Minério de ferro (US$ 42,2 bilhões), soja (US$ 37,3 bilhões) e óleo bruto de petróleo (US$ 27,4 bilhões). Isso demonstra nossa dependência e subserviência às economias de países economicamente mais desenvolvidos e ricos, que compram nossos produtos primários para convertê-los em bens manufaturados e venderem de volta para nós. 

Na abastada França do século XVII,  o Rei Luiz XIV detinha tanto poder que se intitulava “Rei Sol”, ficando conhecido por uma frase que bem expressava sua personalidade emoldurada por sua riqueza: “L’état, c’est moi” (O Estado sou eu). Esse poder se estruturava na opulência do Estado, paradoxalmente à realidade expressada pela pobreza de grande parte do povo, e que lhe assegurava condições econômicas para enfrentar guerras e se impor perante outras nações.

No recente e triste episódio da invasão da Ucrânia pela Rússia, constata-se que os membros da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) poderiam, numa utilização do seu poder econômico, sufocar economicamente a Rússia utilizando entre outros instrumentos, a SWIFT (Sociedade de Telecomunicações Financeiras Mundial). Este sistema bancário internacional, criado na Bélgica em 1973, é utilizado como forma de padronização de informações financeiras e transferências de recursos entre bancos ao redor do mundo. O Sistema reúne 11 mil instituições em mais de 200 países, onde são processadas cerca de 42 milhões de mensagens por dia. Foi noticiado que instituições financeiras russas foram bloqueadas, excetuando algumas que são utilizadas para pagamentos de transações com países, entre os quais os Estados Unidos.

Se na natureza a água e o vento são as forças mais poderosas, sendo capazes de vencer quaisquer obstáculos, na sociedade, o poder econômico é imbatível.  O dinheiro, instrumento utilizado pela economia para atingir seus objetivos, quebra paradigmas, converte opiniões, corrompe caráter, fomenta guerras, penetra em todas as áreas de interesse humano submetendo-as à sua vontade. 

O livro bíblico de Eclesiastes, cuja autoria é atribuída ao rei Salomão, registra a seguinte citação: “Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente; quem ama as riquezas jamais ficará satisfeito com os seus ganhos. Isso também não faz sentido”.