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Coluna

Paradoxo das sandálias

15 janeiro 2026 - 13h41

Recentemente o mercado publicitário ficou agitado em razão de uma propaganda de fim de ano das sandálias Havaianas, estrelada pela atriz Fernanda Torres, gerando discussão política nas redes sociais. No comercial, Fernanda defende que as pessoas entrem em 2026 com os “dois pés”. Diz o texto da divulgação: “Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte, mas vamos combinar: sorte depende de você, depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser. Vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça aos pés. Havaianas, todo mundo usa, todo mundo ama”. Esta campanha da maior marca do grupo Alpargatas, colocou as Havaianas no centro de uma nova disputa política nas redes sociais e levou apoiadores da direita a defenderem boicote aos produtos da empresa, atiçando os da esquerda a contra-atacarem com incentivo à marca. Duas hipóteses podem ser levantadas para o caráter político desta propaganda. Primeiro: houve intensão de desclassificar o grupo político de direita, o que justificaria as manifestações registradas. Segundo: foi uma mensagem de otimismo e ânimo para um novo ano, e a celeuma provocada foi coisa da cabeça das lideranças da oposição. Qualquer que seja a resposta, fato é que a marca foi divulgada além das expetativas, inclusive no mercado internacional. 

Philip Kotler, professor e escritor americano, disse certa vez: “Se você criar um caso de amor com seus clientes, eles próprios farão sua publicidade”. Certamente que no contexto atual Kotler reformularia sua frase para: “caso de amor e ódio”, pois foi exatamente o que aconteceu. A repercussão da campanha revolucionou o mercado de propaganda, divulgando a marca de tal forma que conseguiu despertar interesse da imprensa, ao ponto de abafar outras matérias de relevância que vinham sendo exploradas, como o caso do banco Master, prisão de Bolsonaro, escândalo do INSS entre outras. Havaianas fixou sendo o nome mais falado em todo o país com repercussão até na imprensa estrangeira. O jornal americano New York Times destacou: “São as sandálias de dedo favoritas do Brasil. Agora, a direita está boicotando. Os chinelos da marca têm sido um símbolo global da cultura brasileira e estão no centro de uma disputa política”. Mark Twain (1835 – 1910), escritor americano, sem saber do caso, já dizia: “Muitas coisas pequenas foram transformadas em grandes pelo tipo certo de publicidade”.

O âmago da questão está na superstição de que para termos um novo ano de prosperidade é necessário começar com o pé direito, pois com o esquerdo dá azar. Claro que isto é superstição, mas muita gente acredita. Os políticos de viés de direita ficaram irritados, levando para o lado político. No entanto, a repercussão da propaganda acabou por divulgar mais ainda a marca, que alcançou recordes de vendas neste final de ano.

Na Espanha, um caso interessante aconteceu em 2012. Cecília Gimenez, uma pintora amadora, recentemente falecida, foi contratada para restaurar um quadro do famoso museu Ecce Homo, na cidade de Borja. Fez um trabalho horroroso, desfigurando a pintura. Entretanto, a repercussão do caso começou atrair muitos visitantes, transformando-se numa atração turística para a cidade. Outro caso é o da marca italiana Benetton, fundada em 1965, famosa por suas roupas coloridas e campanhas de impacto, que promovem a diversidade e inclusão, provocando com suas mensagens icônicas, discussões sociais e visualização ampla na mídia.   

Certo está o ditado que diz: “Falem mal, mas falem de mim”.