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Coluna

O período temido do mês

29 dezembro 2020 - 18h03

Recentemente vi na internet um vídeo muito engraçado em que o pai de uma menina comprou um pacote de absorventes pra ela com 16 unidades. Ele dizia: “esse pacote vai durar pro ano inteiro”. A graça do vídeo estava na inocência de um homem achar que, como a menstruação vem uma vez por mês, ela só precisaria de um absorvente pro dia. Bom, no começo pareceu engraçado, mas depois me fez pensar em quantos homens simplesmente não têm ideia de como funciona o período das mulheres. Não estou aqui pra ensinar ninguém sobre como perdemos sangue todos os meses, mas assim como o vídeo, mostrar que algumas situações não deveriam ter graça. Quando eu era só uma pirralha na escola estudando biologia, lembro muito bem de rir junto com o resto da classe quando apareciam os aparelhos reprodutores masculinos e femininos. Mas o que eu não me lembro é de ter estudado algo que aconteceria comigo a qualquer momento, num dia qualquer, de uma semana qualquer, eu poderia estar na praia, ou em casa, e me veria ‘suja’ de sangue sem entender nada.

Ainda jovem, presenciei uma situação, que também pode ter sido hilária para muitos, mas definitivamente não pra moça que passou por ela. Um homem chega numa menina que estava em pé sozinha. Ela de prontidão diz que tem namorado, pra ele não chegar nela, e ele irritado, grita para todos ouvirem: “Não ia chegar em você, sua baranga, vim te avisar que você está toda cagada de sangue”. Muitos riram, eu era nova, mas não ri, a menina saiu desconcertada e envergonhada. Eu e minhas amigas quando menstruadas vivíamos perguntando umas para das outras: “Amiga, confere se eu estou suja”. Esconder absorventes em bolsinhas, se precisar trocar, ir ao banheiro naturalmente, com a bolsa a tira colo: “Vou retocar a maquiagem”. Minha calcinha está torta, incomodando, mas não vou concertar na frente de todo mundo, vou ao banheiro. Mas tudo bem os homens mexerem no saco constantemente.  Com amigos ou até mesmo meu marido, se estou irritada, logo vem a afirmação: “ihhh, ta na TPM, né?”.

Agora depois de ‘burra velha’ entendo melhor o que realmente acontece comigo. As nuances de humor, irritabilidade, ansiedade, dores no corpo, acne, inchaço sonolência, vontade de chorar, a precaução com as roupas, escolher direito o absorvente certo, que não incomode tanto, porque todos incomodam de algum jeito. Os sintomas são muitos, e diferentes pra cada mulher, as vezes antes da menstruação, as vezes depois, as vezes durante. Pode durar uma semana inteira pra algumas, menos ou mais pra outras, mas todas passam pela mesma estrada. Recentemente surgiram mais opções, além das malditas mini fraldas de algodão que grudamos nas calcinhas. Copinhos internos ou calcinhas absorventes, por exemplo. Ainda estamos descobrindo modos de enfrentar melhor algo que impreterivelmente acontece.

Algumas mulheres odeiam tanto passar pelo processo que tomam remédios atrás de remédios pra simplesmente não menstruar. Não julgo, não aprendemos isso como se fosse uma boa passagem. Ainda ouvimos coisas como “Fulaninha ficou mocinha”. Pouco tempo atrás, a menstruação significava que a mulher estava pronta pra reproduzir e se casar. Pais entregavam suas filhas com 10, 11, 12 anos aos seus respectivos “maridos”, pois já estavam prontas para isso. Imagina? Em algumas culturas, seguindo a Bíblia, uma maldição, um castigo imposto à Eva, impura. Nas propagandas infinitas de absorventes na televisão, o sangue é sempre azul. Por que será? Por que tanto tabu em relação a algo tão natural, que acontece com todas as mulheres, todos os meses? Estou falando isso porque estou aqui sentada, menstruada, incomodada. Precisava passar esse incômodo à frente, mas é só TPM, não se preocupem, vai passar.