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Coluna

O padrão inalcansável

24 fevereiro 2021 - 16h25

Quantas vezes antes de sair de casa, nós, mulheres, demandamos um tempo superior, pois precisamos secar e alisar o cabelo, escolher a roupa, passar maquiagem? Troca a roupa pois não gostou, retoca a maquiagem, ‘cadê minha bolsa?’,
confere se o mundo inteiro está dentro da bolsa, troca a blusa, ufa, agora sim. Quantas vezes nos pegamos olhando perfis na internet de blogueiras; influencers; artistas; bem magras, cheias de cirurgias e procedimentos estéticos e desejamos
ser ou estar como elas? Quantas vezes você foi gravar um storie, se assustou com seu rosto na câmera e correu pra achar o filtro perfeito que esconde todas as imperfeições?

Ou editou suas fotos antes de postar? Pois é, existe um padrão cruel, quase silencioso, que dita o que é ou não é belo, e nós vivemos nessa corrida onde não existe linha de chegada, apenas gastando tempo e saúde mental pra se chegar onde disseram que deveríamos ir.

Na minha geração, quando pequenas, nossas bonecas eram brancas, de olhos verdes ou azuis, loiras, magras, bem magras. Mais tarde conhecemos o mundo das “rainhas”, e não por coincidência, são elas bem parecidas: Angélicas; Xuxas; Elianas; Cinderelas; Brancas de Neve. Mais pra frente, em revistas, filmes ou novelas, somos apresentadas as atrizes e modelos, photoshopadas e editadas mesmo cobertas de dois quilos e meio de maquiagem.

Devagar, mas cruelmente, nosso espelho vai nos mostrando que estamos fora desse padrão, que não chegamos nem perto de sermos o ideal. Aos poucos, minguando nossa autoestima, destruindo nosso senso de belo, criando obsessões, distúrbios alimentares. Criando mulheres extremamente infelizes com seus próprios corpos, que se mutilam e maquiam o que supostamente é defeituoso.

Quem ganha com isso está podre de rico às custas de nossos medos e inseguranças. Pois não existe um só dia que a mulher não gaste tempo ou dinheiro num processo de se descaracterizar fantasiado de “autocuidado”. Afinal de contas, se não fizermos as unhas, não estarmos devidamente depiladas, cabelos no lugar, magras e bem vestidas somos desleixadas. Mas óbvio, precisa ter uma certa balança, já que se nos preocupamos demais com isso e gastamos demais com isso, somos no mínimo, fúteis. Ou seja, uma corrida infinita sem linha de chegada, onde mulheres se matam e matam umas às outras em rivalidades imaginárias.

Enquanto isso, o congresso é composto por homens velhos e brancos. Enquanto isso, a maior parte de donos de grandes empresas é homem. Enquanto isso, liberado para viver sem precisar se preocupar em ser pai por completo, ou se depilar, ou se maquiar, ou cuidar da casa, ou passar cremes no rosto, pescoço, mãos, cutilar as unhas, ou viver em funções triplas
diariamente, o homem branco é livre para liderar o mundo.

Coberto de capa invisível de um superherói, criado para ser livre e obstinado, a não chorar feito “mulherzinha”, pois isso demonstra fragilidade – e o sexo frágil é do lado de lá.