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Coluna

O flautista de Hamelin

19 agosto 2021 - 16h34

Um conto folclórico, reescrito pelos irmãos Grimm, relata uma história acontecida na cidade de Hamelin, na baixa saxônia, Alemanha.

Em 1284, a cidade estava sofrendo com uma infestação de ratos. Certo dia chega à localidade, um homem que se dizia caçador de ratos, e que teria a solução para o problema. Prometeram-lhe um gordo pagamento em troca dos ratos – uma moeda por cada um que fosse extinto. O homem aceitou o acordo, pegou uma flauta e hipnotizou os ratos, conduzindo-os até o rio Weser, afogando-os.

Apesar de obter sucesso, o povo da cidade recuou da promessa feita e recusou efetuar o pagamento, afirmando que ele não havia apresentado as cabeças dos ratos. Então, por vingança, tocou sua flauta novamente atraindo todas as crianças, levando-as para fora do povoado e trancando-as em uma caverna. Na cidade, só ficaram opulentos cidadãos, celeiros repletos, e um imenso silêncio e tristeza.

Existem várias versões para esta história, inclusive algumas tidas como verídicas, o que permite ser utilizada como uma metáfora aos tempos modernos. Evidente que não temos um flautista encantador de ratos, nem crianças para serem encantadas, mas pessoas capazes que têm em suas mãos o poder da resistência e direito de se indignar. É certo que podemos mudar a estrutura econômica, política e moral do nosso país. Basta que elejamos representantes comprometidos com o bem estar e a felicidade geral. As leis, as regras e os regulamentos são feitos por homens, iguais a qualquer um de nós. Por que então avançamos de forma tão lenta? Em algumas situações até regredimos. A resposta é óbvia, porque não somos bem representados, ou não exercemos nosso poder de resistência. E aí voltamos à história do hipnotizador de Hamelin. Quando chega época de eleições, o povo sofre uma hipnose coletiva e acaba sendo seduzido, reconduzindo os mesmos para a representatividade legislativa, ou simplesmente se omite conformado com o “status quo”.  

Uma notícia veiculada na semana passada nos deu conta de que os bancos comerciais obtiveram em 2020 uma lucratividade maior em relação a períodos anteriores. Os juros de usura praticados, as inúmeras taxas que são cobradas, constituem uma mina de ouro para os banqueiros. Cobra-se taxa de manutenção de conta corrente, e para qualquer ocorrência. Isso sem falar na estratégia de redução de custos suportada pelo sacrifício e humilhação imposta aos usuários dos seus serviços. O setor financeiro vem passando ileso pela pandemia, à custa de fechamento de agências e postos de trabalho. Só um banco obteve um salto de 73,6 % na sua lucratividade líquida em comparação com os primeiros meses do ano passado. Esse banco eliminou 8.547 vagas de trabalho, fechou 1.088 agências criando 700 “unidades de negócios”. Tudo isso debaixo dos olhos das “autoridades” que nada fazem.

E o que falar dos preços dos combustíveis que são diretamente subordinados às agências reguladoras? E nem falo do impacto que gera no bolso do combalido cidadão que tem todo direito de ter o seu automóvel, para lazer ou trabalho. Refiro a repercussão sobre o valor dos fretes, que influencia no preço dos alimentos e demais bens de consumo.  
Recentemente foi autorizado pelo órgão regulador o aumento do pedágio na Via Lagos, considerado um dos mais caros do país. Não percebemos nenhum tipo de resistência a esse ato. Pode-se argumentar que é cláusula contratual, etc., mas o momento não é de crise? A maioria dos setores econômicos não está suportando com sua cota de sacrifício o momento pelo qual o país passa?  

Vemos uma sociedade inerte, incapaz de se indignar com o comportamento dos representantes eleitos, muitos comprometidos com o sistema. A impressão que fica é que estamos todos “encantados”, omissos, deixando o país para os “barões” abastados, que se enriquecem dia a dia à custa do sacrifício, principalmente dos assalariados que arcam com todas essas mazelas.

Na história do flautista de Hamelin, só ficaram na cidade três crianças. Uma que era cega e não pôde ver para onde iam as demais, outra que mancava e não conseguiu acompanhar a marcha, e uma terceira que era surda e não pôde ouvir o som da flauta. Metaforicamente, serão essas que vão nos salvar? Finalizo com uma citação de Stéphane Hessel (1917 – 2013): “A indignação é o fermento do espírito da resistência”.