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Coluna

O cuidado de si é o luxo que a classe média não pode mais comprar

26 fevereiro 2026 - 14h26

Tempo para o ócio é coisa de rico ou de miserável, e o sujeito de classe média que ousar tê-lo será chamado de vagabundo. Todos nós sabemos que o homem é um animal social, um animal político. A formação de vínculos com terceiros é tão importante que, através deles, formou-se a dinâmica de colaboração e cooperação que possibilitou a edificação de civilizações, implicando a construção e disseminação de conhecimento, o desenvolvimento da cultura e da arte, o avanço técnico e científico da espécie e o aumento da expectativa de vida.

Embora todo esse convívio e contato social sejam importantes, estar sozinho e também agir por conta própria, sem esperar a aprovação de outros, são coisas essenciais a todos, uma vez que há uma grande tendência da sociedade para a padronização e massificação do indivíduo. Sem espaço para exercer a sua individualidade, o colapso geral é inevitável.

É nas horas calmas e profundas da solidão que o sujeito encontra espaço para ser quem é. Ali, livre das pressões de grupos e das expectativas alheias, é possível marcar um encontro consigo e aproveitar o deleite da própria companhia. Esses momentos possibilitam a construção da pessoa através do exercício de seus hobbies, de suas pesquisas desinteressadas, das leituras e das atividades aprazíveis que visam nada além de instantes agradáveis e significativos.

Situações como essas, de profunda conexão consigo e de desligamento do mundo externo, tornam-se cada vez mais raras por conta da avalanche de estímulos constantes vindos de variados meios e canais. Numa realidade embriagada de entretenimento barato, raso e amplamente distribuído, estar desconectado deste frenesi e em contato com seus próprios pensamentos chega a ser encarado como um luxo destinado aos abastados, e não algo essencial a qualquer pessoa.

A classe média, coitada, cada vez menos sabe o que é o tempo para o ócio e para o cuidado de si. Os ricos estão alforriados porque, com seus recursos, compram quanto tempo quiserem; os miseráveis, por sua vez, nem mesmo estão inseridos neste sistema (desprovidos de tudo, não contam com nada além das horas que passam de forma pesada para eles). Os que estão no meio dos extremos vendem o almoço para comprar a janta, correndo em busca de um lugar ao sol. A nós, o que nos resta?