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Coluna

O cavalo inglês

31 março 2023 - 06h10

É uma história muito conhecida, inclusive usada por mim, como “case”, em aulas de economia. Conta-se que havia um pequeno empresário inglês que tinha um belo cavalo, utilizado no seu negócio como meio de locomoção. Estando com dificuldade financeira, esse empresário solicitou um empréstimo bancário. Em contrapartida, o banco solicitou que apresentasse um plano de contingenciamento de despesas, para que seu negócio prosperasse e pudesse pagar o empréstimo. Isso foi feito, mas não redundou em resultado suficiente para alcançar a meta estabelecida. Resolveu, então, mexer na despesa que tinha com o cavalo, através da redução gradual da ração que era utilizada. No primeiro mês reduziu em 10% a ração; no segundo, mais 10%; no quarto mês o cavalo já apresentava um quadro de debilidade e magreza. Mas como a economia era substancial, continuou, até que no quinto mês o cavalo morreu.  

Contingenciamentos de despesas e redução de custos são primordiais em todos os negócios, inclusive em nossa economia doméstica, desde que a qualidade não seja comprometida, nem a eficiência afetada. Há um ditado antigo, que diz: “Economia é a base da porcaria”. É um termo chulo, mas verdadeiro.

Um caso acontecido no Rio de Janeiro, no dia 22 de fevereiro de 1998, portanto há vinte e cinco anos, e que provocou a morte de oito pessoas e deixou 120 famílias desabrigadas, é um exemplo do que o corte de despesas, feito de forma aleatória, pode resultar em irreparáveis prejuízos. Uma torre do edifício Palace 2, que vinha sendo construída pela empresa Sersan Engenharia, desabou. Na investigação das causas, constatou-se que havia sido aplicado vergalhão e cimento em quantidade muito inferior ao previsto no projeto, além da utilização de areia da praia na preparação do concreto, prática nada recomendável. Uma economia que determinou a falência da empresa, além da execração pública do seu dono.

Em visita a supermercados podemos constatar a existência de inúmeros produtos que sofreram alteração de fórmula para baratear o custo, mas que comprometem a qualidade. Outra prática muito usual é a de reduzir o conteúdo da embalagem, mantendo o mesmo preço.

E o que falar dos produtos piratas, isto é, aqueles de procedência duvidosa e baixo preço? São como pessoas falsas, “te atraem pela facilidade, mas logo te decepcionam pela qualidade”.

Na área pública, o que mais se questiona é a qualidade das obras realizadas, muitas camufladas e de pouca durabilidade. O que seria fator de economicidade para o poder público acaba por contribuir para a má qualidade do que é entregue, uma vez que a contratação das empresas prestadoras de serviços é feita por licitação e vence quem der o menor preço. O vencedor, para poder cumprir o contrato, sacrifica a qualidade. Mesmo com fiscalização, utiliza material inferior, mão de obra não qualificada, e outras estratégias para reduzir custos. Foi de certa forma o que aconteceu com a “Ciclovia Tim Maia”, na Av. Niemeyer, Rio de Janeiro, em abril de 2016. Mal projetada e com erros estruturais, não resistiu ao impacto das ondas e ruiu, matando duas pessoas.   

Na vida pessoal também encontramos exemplos de consequências desastrosas pela utilização de produtos “mais econômicos”, mas com qualidade comprometida, que causam danos à saúde das pessoas. É aquele ditado antigo, mas que permanece atual: “o barato sai caro”.

Cortar custos no lugar errado não é economia, é um tiro no pé.