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Coluna

Nó Górdio

25 junho 2022 - 13h39

Conta-se que o rei da Frígia morreu sem deixar herdeiro e que, ao ser consultado, o Oráculo anunciou que o sucessor chegaria à cidade em uma carroça. A profecia se cumpriu quando um camponês chamado Górdio chegou à cidade em uma carroça e, logo, foi coroado Rei da Frígia.

Para não renegar seu passado humilde, o Rei Górdio colocou a carroça, com a qual ganhou a coroa, no templo de Zeus, e a amarrou com um enorme nó a uma coluna. O nó era impossível de desatar e por isso ficou famoso por toda Ásia.

Górdio reinou por longos anos, tornando a Frígia uma região próspera. Quando morreu, seu filho Midas assumiu o trono, expandiu o império, mas ao morrer não deixou herdeiro. O Oráculo foi ouvido novamente e declarou que quem desatasse o Nó de Górdio assumiria o trono e dominaria o mundo.

Meio século se passou sem que ninguém conseguisse desatar o nó, até que, em 334 a.C., Alexandre, o Grande, ouviu essa lenda ao passar pela Frígia. Intrigado, foi até o templo de Zeus observar o feito de Górdio. Após muita análise, desembainhou a espada, cortou o nó, e se apoderou da Frígia.

Essa lenda é comumente utilizada como metáfora para ensinar lições sobre soluções de problemas aparentemente insolúveis. A postergação de ações tem sido a causa de muitas crises enfrentadas pela humanidade em todos os setores, seja econômico, político ou religioso, sabendo-se que esta é uma tarefa administrativa, sob a responsabilidade de líderes gestores.

Herbert Von Karajan (1908 – 1989), maestro austríaco, é autor de uma frase que muito tem me inspirado: “Quem decide pode errar. Quem não decide já errou”. Ao tomar uma decisão temos 50% de chance de acertar e 50% de errar. A omissão por si mesma já é 100% de um erro. Um ditado antigo diz que “quem não arrisca não petisca”, quem não tentar nunca vai conseguir chegar a lugar nenhum.

Recentemente, ações que deveriam ter sido tomadas pelos governos para conter a pandemia do coronavírus foram postergadas, ocasionando danos irreparáveis, tanto no aspecto humano quanto no financeiro. Faltaram eficácia e objetividade por parte das autoridades.

A ousadia e destemor têm sido a marca dos vencedores. Ao estudar a história das grandes invenções, vemos que seus autores passaram por descrédito, alguns foram enxovalhados, outros taxados de malucos, etc., mas ao final, alcançaram o reconhecimento e a glória.

Apesar da legislação pesada, que peca pelo excesso de burocracia, a área pública é a que mais se recente de inovação. Transitei por mais de uma década na administração pública municipal. O que mais me incomodava era a falta de criatividade, sair do mesmismo. Certa vez fui procurado pelo representante de uma empresa que veio me questionar do porquê de lhe ter sido negado o fornecimento de um talonário de nota fiscal (naquela época ainda não havia sido implantada a nota fiscal eletrônica). Fui ao setor responsável e me informaram que a razão era de a empresa estar em débito com pagamento de impostos. Até aí pude considerar certa razoabilidade, mas se não fosse liberado o talão, o contribuinte não poderia emitir a nota fiscal, faturar, receber e pagar o que estava devendo. De imediato determinei a liberação do talonário e que se remetesse o débito para o setor de dívida ativa para a devida cobrança pelos meios legais. Acabei com um paradigma. Em outra situação questionei a razão pela qual davam aos processos em tramitação destinos desnecessários, que demandavam perda de tempo. A resposta foi que “sempre fizemos assim”. “Então vamos mudar”, determinei.

Na área empresarial algumas empresas pontificaram com criatividade e inovação. A firma Vilarejo causou impacto ao estampar na fachada de suas lojas a pintura de uma casa abalada, de cabeça para baixo; a Benetton (United Colors of Benetton), empresa italiana que esteve aqui no Brasil, causava furor com suas propagandas impactantes. Durante meio século a família italiana Benetton pregou a compaixão por meio de anúncios surpreendentes da sua linha de roupas que incluíam fotos de uma pessoa com Aids morrendo, de uma mulher negra amamentando um bebê branco, imigrantes africanos sendo resgatados do mar, entre outros temas polêmicos. Lógico que essas iniciativas atraíram a atenção do público, agregando valor para a marca da organização.

Mas o que se vê no meio empresarial é a repetição de ideias, falta de criatividade, por isso acontece a morte prematura da maioria delas.

Quando da implantação do Plano Real, em 1994, a fórmula do sucesso foi uma medida radical, ousada, tomada pela área econômica do governo, ao retirar toda a moeda do mercado, criar uma moeda intermediária e introduzir um novo padrão monetário, o real.

Salvador Dali (1904 – 1989), pintor surrealista espanhol, deixou-nos uma frase polêmica, mas que de certa forma expressa o perfil de quem quer enveredar pelo campo da criatividade: “Você tem que criar confusão sistematicamente; isso liberta a criatividade. Tudo que é contraditório cria vida”. Pois é, quando nos preocupamos com a crítica, sufocamos a criatividade.

(*) Clésio Guimarães é empresário, professor, administrador de empresas e representante do CRA-Conselho Regional de Administração.