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Coluna

NFT – Escassez digital

04 abril 2022 - 14h37

O filho do jogador de futebol Ronaldo, Ronald, disse recentemente numa reportagem, que havia herdado o DNA do pai, mas não sua habilidade. Isso demonstra que cada um de nós é único naquilo que nos destacamos. Assim acontece praticamente em todas as manifestações artísticas, esportivas e culturais, e por que não incluir, também, administrativas? O dom ou talento é pessoal, não pode ser transferido ou herdado por ninguém. Alguns podem até imitar, como existem excelentes imitadores, mas apenas isso, imitadores.

Tendo como uma das finalidades preservar e certificar esses atributos que são únicos, foi desenvolvida uma tecnologia denominada de “NFT”, sigla de “Non Fungible Token”, ou seja, Token não fungível, ou coisa que não pode ser trocada ou substituída. A princípio aplicada em jogos digitais, o processo foi direcionado para artes e criações, e é usado para provocar “escassez digital verificável”.

Albert Einstein (1879 – 1955) disse certa vez: “Se tornou aparentemente óbvio que nossa tecnologia excedeu nossa humanidade”. Isso foi dito numa época em que falar de tecnologia praticamente não se dizia muita coisa. Hoje vemos que ele tinha absoluta razão, a tecnologia ultrapassou em muito nossa humanidade.

Entretanto, a ideia de coisa única é antiga e sempre foi aplicável à administração e à economia, entre outras áreas. Muitas empresas fracassam por copiar modelos administrativos de outras; muitos países entram em processos de estagnação por imitarem práticas adotadas por outros, sem atentarem para as peculiaridades inerentes à sua própria cultura, geografia, e outras nuances. Cada empresa, país ou pessoa é único, assim como nossa impressão digital. O copiar obras alheias, fraudar, imitar ou plagiar, sempre foram práticas utilizadas pelos homens com o objetivo de usufruir ganhos fáceis com coisas de propriedade de terceiros, e isso vem desde o início da humanidade. Um caso interessante é contado na Bíblia ao mostrar a estratégia de Rebeca, mãe de Jacó, para enganar seu marido Isaque, que estava cego. Jacó, que havia trocado um prato de lentilha com seu irmão Esaú, pelo direito de primogenitura, revestiu seu braço e pescoço com a pele de um cabrito, e quando Isaque o apalpou, foi induzido a pensar que era o outro que tinha o braço cabeludo, e o abençoou, reconhecendo o direito conforme a tradição. Mas, logo o estratagema foi revelado, como acontece em todas as falsificações, muito embora não mais pudesse ser revertido.

Os prejuízos que a comercialização de bens copiados, pirateados ou fraudados causam às economias dos países são incalculáveis. Só o Brasil em 2020 perdeu cerca de R$ 280 bilhões com pirataria. As vendas de obras de arte falsificadas acontecem em todo mundo. E o que não falar da falsificação de moedas e até de documentos? “Vários fatores contribuíram para o aumento acentuado dos custos, como os fraudadores visando empresas financeiras para obter contas e a clonagem de cartões, crescimento de pagamentos digitais, por parte dos consumidores e o aumento das transações por meio de canais em dispositivos móveis, que criaram problemas de fraude de identidade – segundo Marcelo Crespo, advogado e especialista em Direito Digital”. Com uso da tecnologia moderna os falsificadores estão cada vez mais eficientes. Porém tudo isso pode acabar nos próximos anos com a popularização dos NFTs.

E não para por aí. Além de assegurar confiabilidade e autenticidade às obras e criações, os NFTs podem circular como uma espécie de moeda única, não intercambiável, servindo como investimento, gerando ganhos para seus possuidores. Isso porque representam registros para uma peça digital que é considerada única, sem qualquer tipo de cópia ou reprodução considerada válida. Diferentemente das demais moedas digitais, o NFT não foi desenvolvido para operar como dinheiro, mas sim como token colecionável associado a alguém ou a algum item em particular.

Apesar dos primeiros movimentos terem ocorrido em 2016, sua utilização é ainda bem restrita, estando em fase de teste. Mas muitos compram para fazer parte dessa comunidade, outros para colecionar e alguns para investimentos. No mercado brasileiro os NFTs começam a se popularizar, sendo utilizado por artistas independentes; na área esportiva para registrar eventos como um lance de um jogo, a exemplo do que fez o Atlético Mineiro que elaborou uma arte da defesa do goleiro Victor contra o Tijuana pelas quartas de finais das libertadores de 2013; no entretenimento, a escola de samba Império Serrano comercializou versões digitais de ingressos e criptoartes; nos Estados Unidos o jogador de futebol americano NFL Rob Gronkowski está comercializando 300 NFT com imagens únicas de suas melhores jogadas como atleta do esporte, e assim pouco a pouco vai tomando conta do mercado.

Esse negócio de NFT aparentemente é muito louco, mas é para esse rumo que estamos caminhando. Voltando a citar Albert Einstein, “a tecnologia está superando nossa humanidade”. Daqui a pouco vamos engarrafar vento e vender com “certificação digital verificável”. Quem viver verá!

*Clésio Guimarães é empresário, professor, administrador de empresas e representante do CRA-Conselho Regional de Administração.