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Coluna

Meias verdades

27 junho 2021 - 12h45

Existe um problema, normalmente proposto em testes de aptidão, que consiste em responder se um copo d’água pela metade está “meio cheio” ou “meio vazio”. Na ótica da psicologia a resposta consiste em o otimista dizer que está “meio cheio” e o pessimista dizer que está “meio vazio”. Qualquer que seja a resposta, uma coisa é certa: o copo d’água não está cheio. Aliás, a palavra “meio” não expressa nada completo. Não existe uma pessoa meio honesta, não existe meio mentira, meio forte, meio competente, etc., por aí vai. Entretanto, no meio jornalístico e na própria economia existe uma prática de se dizer alguma coisa não verdadeira como se fosse tal, e de forma absoluta defender esta posição até que ela possa ser vista como uma verdade. É o que chamamos de Sofisma ou Falácia, palavras que significam “argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade”. 

Atribui-se a Joseph Goebbels, Ministro de Propaganda da Alemanha nazista, a seguinte frase: “Uma mentira contada mil vezes torna-se uma verdade”.               

Quem é “meio” não é nada. Isto lembra uma regra básica utilizada em entrevista de recrutamento de pessoal, quando um candidato é perguntado o que sabe fazer, e ele responde: “Sei fazer de tudo um pouco”. Esse candidato vai ser eliminado. Porque certamente quem sabe de tudo um pouco não sabe nada de um todo. 

Tudo isso serviu de introdução para falar da “meia verdade”. Pela lógica exposta, portanto uma meia verdade pode ser também uma mentira. No meio econômico é praxe a divulgação de informações que possam servir a determinados interesses, principalmente na área de investimentos. A Bolsa de Valores é um clássico exemplo de volatilidade em relação às noticias que são divulgadas, na maioria das vezes sem fundamentação. Tivemos na semana passada (14) um caso interessante que fez com que a Coca Cola sofresse em um só dia, uma desvalorização de US$ 4 bilhões das suas ações em Bolsa. O jogador português Cristiano Ronaldo estava se preparando para uma entrevista coletiva, quando afastou, da sua frente, duas garrafas de Coca Cola, que estavam ali como “merchandising”, substituindo-as por duas de água mineral. Esta atitude, aparentemente inofensiva, foi o bastante para viralizar nas redes sociais e criar um efeito negativo na imagem do produto, atingindo o interesse dos investidores.

Na área pública é comum a divulgação de noticias sem fundamentação comprovável, com o objetivo de melhorar a imagem de um governo. Informações como, por exemplo, valor do PIB, índice de desemprego, índice de inflação e outras notícias, sob a forma de “release”, são entregues para a imprensa, que as divulga para conhecimento geral. Só que quem delas toma conhecimento não tem como comprovar sua veracidade. 

Algum tempo passado, foi divulgado pelo Ministério da Economia que houve redução da carga tributária em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). Ora, em época de sufoco fiscal, falar de redução de carga tributaria é um excelente marketing político para qualquer governo. Só que não foi esclarecido que esta redução foi apenas na teoria, pois era resultante da estatística econômica aplicada no levantamento e cruzamento de dados, o que na ocasião havia sido motivada pelo aumento das exportações, cujos produtos recebem incentivo fiscal com uma carga de tributos menores. Uma meia verdade.                                 

Outra notícia de impacto foi a de que o Brasil melhorou seu “Superávit Primário” – só para lembrar, superávit primário é a diferença positiva entre o que se arrecadou e o que foi gasto, ou seja, o que sobrou de nossas contas internas – segundo dados divulgados pelo Banco Central, em abril desse ano o resultado foi de 24,255 bilhões. As autoridades da área econômica comemoraram o feito como sendo resultado de uma política de austeridade do governo, porém omitiram a informação de que isto foi conseguido em razão da redução dos investimentos públicos no período, as chamadas despesas de capital. Mas os gastos com “custeio” não foram reduzidos, e são esses que representam o “ralo” dos recursos arrecadados. Uma meia verdade. 

 E agora que as chamadas “fake news” viralizaram, não sabemos mais em quem e em que acreditar.