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Coluna

Falácia

21 novembro 2022 - 10h35

No dia 30 de outubro de 1938, nos Estados Unidos, a rede de rádio CBS (Columbia Broadcasting System) interrompeu sua programação musical para dar uma notícia de uma suposta invasão de marcianos. A transmissão foi em edição extraordinária, que era na verdade o início de uma peça de rádio teatro que elevou a audiência da emissora e desencadeou pânico em várias cidades norte-americanas. A peça, denominada a “Invasão dos Marcianos”, durou uma hora, mas seu impacto ficou na história da rádio.

A CBS calculou que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, onde 1,2 milhão acreditou ser um fato real. Houve pânico coletivo, com aglomeração nas ruas e congestionamento por causa das pessoas tentando fugir. O medo paralisou três cidades. A dramatização, transmitida às vésperas do Halloween, em forma de programa jornalístico, tinha as mesmas características de programas já conhecidos dos ouvintes, motivo que deu credibilidade à matéria, não causando suspeição sobre sua veracidade. O roteiro foi escrito por Orson Welles (1915 – 1985), ator e diretor norte-americano, baseado no livro “A Guerra dos Mundos” (1898), escrito por Herbert George Wells (1866 – 1946).

Esse episódio nos remete aos dias atuais, quando as chamadas “fake news” tanto estrago têm causado nos meios sociais, políticos e corporativos. As mídias sociais têm sido o canal de divulgação dessas notícias, levando muitos à desinformação. Essa prática de divulgação de fatos inverídicos, como se fossem verdadeiros, é chamada de “falácia”, que tecnicamente definimos como um raciocínio errado com aparência de verdadeiro. Dizer que uma falácia é um argumento inválido que parece válido está de acordo com uma tradição iniciada por Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), o primeiro a identificar e selecionar esse tipo de erro de raciocínio. Reconhecer uma falácia não é uma tarefa fácil, uma vez que podem conter argumentos emocionais, psicológicos ou culturais que influenciam as pessoas, levando-as a acreditarem nos fatos relatados.

Falácia tem um “parente” bem próximo, que é o sofisma. Ambos transitam com desenvoltura no meio político, notadamente em época de campanha eleitoral. Candidatos ao Legislativo se apresentam com promessas de que vão fazer tal obra, vão acabar com tal cobrança, vão reduzir tributos etc. Nada disso tem fundamento legal, pois um candidato a cargo no Legislativo só pode propor e indicar matérias. E as pessoas acreditam! No âmbito cultural, crescemos ouvindo falar que quem bebe leite não pode chupar manga, pois pode morrer; que após uma refeição não pode tomar banho porque implica em risco de morte; que se engolir chiclete, este fica preso no estômago, entre outras crendices. A diferença entre elas é que a falácia representa um engano ou falsidade sem o condão do dolo, enquanto o sofisma tem como característica ser pejorativa, ter a intenção de ludibriar, como no caso de um candidato político que promete fazer o que legalmente não pode. Curioso é que já vi candidato a cargo público para o Executivo, assinar, em época de eleição, carta de compromisso sobre determinado tema que jamais seria cumprida.

No meio econômico são muitas as falácias que surgem com o objetivo de enganar, para obtenção de mais lucros. É comum surgirem modismos que visam influenciar ou inibir consumo de alguns alimentos. A cada ano surgem, nas mídias, informações sobre determinadas classes de produtos que fazem bem ou mal à saúde das pessoas, muitas vezes sem fundamentação científica, mas as pessoas acreditam e se posicionam diante dos argumentos apresentados, o que acaba influenciando o mercado. Há um caso clássico contado em aulas de marketing, onde, supostamente, um funcionário da Coca-Cola teria caído dentro de um reservatório de preparo da bebida, ficando seu corpo desmanchado, corroído pelas substâncias químicas. Foram divulgados relatos de consumidores que teriam encontrado pedaços de pele humana em garrafas do refrigerante. Tudo “fake”, uma falácia que causou sérios problemas na imagem da multinacional. 

O mercado de ações é o que mais personaliza falácias, considerando a essência conceitual desse papel como unidade representativa do capital de uma empresa, que habilita seus possuidores a participarem do rateio do lucro auferido em determinado exercício. Uma expectativa construída artificialmente pelo mercado pode despertar interesse de investidores e elevar a procura e, consequentemente, o seu valor, sem que haja efetivamente base real para tanto. Sintetizo com uma frase de Charles Colton (1780 – 1832), clérigo e escritor inglês, que diz: “Há enganos tão bem elaborados que seria estupidez não ser enganado pro eles”. Algo assim como uma verdade que não é verdadeira, essa é a falácia.