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Coluna

Falácia da grama azul

05 março 2026 - 12h37

 Uma fábula, de autor desconhecido, relata a história de um tigre, um burro e um leão. Conta-se que certa vez estavam o tigre e o burro discutindo sobre a cor da grama. O tigre dizia que a grama era verde, o burro insistia que era azul. Em dado momento os ânimos ficaram exaltados e quase partiram para a agressão física. Então, resolveram ir consultar o leão, o rei.  Mal avistou o leão, o burro começou a gritar, perguntando: “a grama não é azul... a grama não é azul?” O leão foi logo dizendo: “é sim!” Aí, o burro disse ao leão: “então castigue esse tigre teimoso, pois ele insiste em dizer que a grama é verde”. O leão logo disse ao tigre: “Como castigo pela sua teimosia, você vai ficar quatro anos sem poder falar”. O tigre, por sua vez, questionou o leão: “Mas majestade, você sabe que a grama é verde, por que deu razão ao burro?” E o leão ponderou: “É para você aprender que não se deve aceitar discussão com quem não tem sabedoria”. 

A história ensina que não se deve discutir com quem já tem opinião formada, com quem não vai ceder, mesmo diante de argumentos irrefutáveis. Por isso se diz que “política, religião e futebol não se discute”, pois dificilmente alguém muda de lado apenas por argumentação ou apelo. Em outro viés aprendemos que há momentos em que temos que partir na frente, defendendo nossa opinião.

Um conhecido, que mais tarde se tornou político, me disse certa vez: “bronca é arma de otário, não aceito desafio para discussão”.  Ele tinha razão, pois nunca vi alguma discussão acabar bem. Entretanto, ficar calado muitas vezes significa abrir espaço para que a mentira prevaleça. É mais do que sabido que uma mentira dita muitas vezes, se transforma em verdade. É o que chamamos de “falácia”, prática muito comum nos dias atuais.

Estamos em período pré-eleitoral, momento em que postulantes a cargos eletivos criam sofismas em busca da simpatia dos eleitores, fazem falsas promessas iludindo os incautos e os gananciosos. É uma fase crítica para a economia do país,  onde as decisões são influenciadas pelo interesse político. Gastos públicos são realizados com a finalidade de agradar os eleitores, as chamadas “obras eleitoreiras”.

Durante a vigência de um dos “Planos de Estabilização Econômica”, o Cruzado, elaborado para debelar a inflação que grassava no país, houve a necessidade de ajustes. Uma das medidas que havia sido implantada foi o congelamento de preços, o que feria o princípio básico da economia, a lei da livre oferta e procura. Assim, decorrido alguns meses da vigência do Plano, era imprescindível que houvesse um ajuste, mesmo que contrariasse a opinião pública. Como as eleições estavam se aproximando, as autoridades governamentais resolveram esperar a data passar para só assim implantar as medidas tecnicamente corretas, não do agrado dos consumidores, contudo necessárias para o sucesso do Plano Cruzado. Passada a eleição, com esmagadora vitória governista, já era tarde, o descontrole já havia tomado conta e a inflação voltou com muito mais força.

Na fábula, se o tigre tivesse ficado em silêncio, e não entrasse em discussão com o burro, certamente não receberia o castigo que lhe foi imposto pelo leão. Por outro lado, se tivesse tido a ação de tomar a frente do seu debatedor e fazer-se ouvir antes dele, iria assegurar uma vantagem competitiva. O posicionamento do tigre me faz pensar em uma citação de Mark Twain (1855 – 1910), escritor norte-americano: “Como a abelha que trabalha na escuridão, o pensamento trabalha no silêncio e a virtude no segredo”.

Temos por hábito sempre estar reclamando do aumento do custo dos produtos, dos impostos, da qualidade dos serviços entregues pelo Estado, etc. Mas, o que se tem feito? A resposta é simples: Nada! 

Martin Luther King (1929 – 1968), pastor e ativista norte-americano, é o autor da frase que vale a pena transcrever: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”.