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Coluna

Encilhamento

19 abril 2021 - 14h37

É unânime o reconhecimento de Rui Barbosa como um dos mais importantes personagens da História do Brasil. Era dotado de privilegiada inteligência e grande capacidade de trabalho, o que lhe permitiu deixar marcas profundas em várias áreas das atividades profissionais: no campo do direito – como advogado e jurista – no jornalismo, na diplomacia, na política, entre outras.

Uma das suas mais importantes atuações foi quando representou o Brasil na Segunda Conferência Internacional da Paz, em Haia-Holanda, tendo ficado conhecido, em face da sua atuação, como “Águia de Haia”. Entretanto, foi na política, como Ministro da Fazenda no Governo do Marechal Deodoro da Fonseca, que Rui Barbosa protagonizou uma das páginas mais desastrosas da nossa economia. O que, evidentemente, não  invalida sua excepcional contribuição na formação política e cultural do nosso país. O episódio que maculou sua biografia ficou conhecido como “Encilhamento”, uma alusão à prática usual nas corridas de cavalos, quando na iminência da largada, os jóqueis apertam as cilhas – tiras de couro – nas celas dos animais. É o instante em que as atenções se manifestam no nervosismo das apostas e forma-se um grande alvoroço. 

Bem, o fato se deu quando com o objetivo de alavancar a economia, Rui Barbosa concebeu um plano que ficou conhecido como “Lei Bancária”, de janeiro de 1890. Este Plano consistiu em dividir o País em quatro zonas – Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo – e instalado um Banco emissor em cada uma delas. Seu propósito era atender as necessidades financeiras, expandir o crédito e estimular a criação de novas empresas nessas regiões. Teoricamente perfeito. O público foi incentivado a desviar parte da sua renda para aquisição de ações, fazendo com que esta operação servisse como lastro para financiar a futura produção de manufaturados. Entretanto, o resultado foi desastroso. A emissão de moedas sem controle acelerou a inflação, que logo chegou aos 115%, proliferaram atividades especulativas e o surgimento de empresas fantasmas com planos mirabolantes e irrealizáveis, supervalorizando suas ações na Bolsa de Valores, em uma orgia especulativa que fez surgir grandes fortunas da noite para o dia. 

A economia foi frustrada em suas melhores esperanças, o que acabou por se constituir no primeiro de um dos mais graves baques financeiro que o Brasil sofreu, no momento em que, principalmente  no Rio de Janeiro e São Paulo, milhares de pequenos investidores perdiam tudo que possuíam, depois de terem apostado nas expectativas de bons negócios, falsamente criados. 

Interessante observar que os fatos ocorridos  no final do século dezenove, a não ser pelo seu principal personagem, parece que estamos falando de um passado muito mais recente, por não dizer atual. O noticiário estampado nos principais veículos de comunicação e nas redes sociais, é prova disso. Empresas fantasmas, “laranjas”– abertas em nome de terceiros que não possuem nenhum bem –, instituições que só existem no papel, e numerosas outras situações, cujo único objetivo é ludibriar o incauto. 

No atual momento, proliferam as ofertas dos investimentos em moeda virtual, que prometem rentabilidade de até 25% ao mês. Conheço pessoas que estão vendendo casas, carros e outros bens para investirem nesse tipo de negócio. Não quero antecipar julgamento, mas deixar registrado que na economia não existem milagres, apenas números, por natureza, frios e insensíveis, que podem ser multiplicados, formando uma bolha, mas ao final acabam explodindo.

Para encerrar, quero deixar uma citação de Pedro Calmon (1939): “ A riqueza (do Brasil) é tão abundante que a agiotagem internacional, endividando o País, não lhe embaraça o progresso; compromete-o, mas o fertiliza”.