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Coluna

Dirigismo

17 setembro 2022 - 11h39

Dirigismo é uma doutrina econômica surgida no período pós-guerra, na França, em que o estado desempenha forte papel diretivo em oposição a um papel regulador, ou não intervencionista, sobre uma economia de mercado capitalista. Essa teoria, que é também uma prática, de orientação da atividade econômica pelo estado no regime capitalista se torna evidente na intervenção direta, através de tributação de produtos e serviços, disponibilização de investimento e crédito, políticas de preços e juros, excesso de leis e regulamentos, etc.

Assume ainda uma série de atribuições que não lhe dizem respeito, como banqueiro, petroleiro, administrador de portos e aeroportos, entre outras atividades, além de ser grande proprietário de imóveis. Em todas essas intervenções fica claro o interesse do estado em influir no mercado, ferindo a lei da livre oferta e procura. Mas se de um lado o estado é pródigo em atuar em áreas que não são de sua competência, no que lhe compete constitucionalmente é omisso e ineficiente, como no tripé saúde, educação e segurança pública.

Napoleon Hill (1883 – 1970), escritor americano, escreveu: “A lei da economia não respeita e nem tolera quem pretende receber sem dar”. Esse pensamento de Hill, de certa forma, explica a postura quase que unânime das empresas em sonegar pagamento de tributos. É uma forma de retaliação ao estado pelos extorsivos impostos cobrados sem dar a contrapartida e muito exigir, na linha do dito popular “faça o que eu digo e não o que faço.”

O dirigismo se contrapõe ao “Laissez Faire” (deixar fazer), que simboliza o liberalismo econômico na versão mais pura do capitalismo aplicado ao funcionamento do mercado. Prega uma economia sem interferências, taxações e subsídios. Apenas a existência de uma regulamentação para proteger direitos de propriedades. Porém os extremos são condenáveis. O modelo ideal é aquele que incentiva a prática de um mercado livre, com uma ação arbitral e reguladora do estado para coibir excessos e garantir direitos.

Nas décadas de 80 e 90, período em que nosso país enfrentava uma inflação galopante (em março de 1990 chegou a 81,3% ao mês), numa ação típica de “dirigismo”, tentou- -se debelar os aumentos através do controle de preços via tabelamento de produtos ou até mesmo congelamento. Essa experiência mostrou-se catastrófica. Os empresários simplesmente deixaram de ofertar suas mercadorias e a escassez resultante acirrou os índices inflacionários.

Encontramos várias outras formas de dirigismo, utilizadas na atualidade, com a missão de manipular massas e criar dependência. As novelas, por exemplo, fenômeno de audiência há décadas, criam uma relação viciante com os telespectadores, que largam tudo para estar na frente de uma tela de televisão com o objetivo de acompanhar capítulo por capítulo as histórias encenadas, influenciando no comportamento de muitas pessoas. E não é só isso, as roupas e objetos exibidos pelos atores e atrizes, numa ação de merchandising, viram tendência e movimentam um lucrativo mercado derivado.

Apesar de o termo ser usado como denominação de um modelo de intervenção do estado sobre as atividades econômicas, pode muito bem ser identificado em outras áreas de interesse humano, como nos ambientes religiosos. Pessoas incautas são subjugadas e manipuladas por líderes que muitas vezes obtêm proveitos nada santos. Um episódio marcante ocorreu no ano de 1978, nas Guianas, onde Jim Jones (1931 – 1978), pastor americano, líder da seita Templo dos Povos, conduziu à morte, por envenenamento, 918 membros da sua organização.

No Brasil, há o entendimento de que as Igrejas, de diversas denominações, formam conglomerados equiparados a grupos econômicos. Isso se justifica por utilizarem os mesmos instrumentos de gestão aplicados às empresas, tendo como finalidade a obtenção de resultados econômicos, independentemente da sua missão fim. Muitas pessoas têm sido direcionadas por algumas denominações para a chamada “teologia da prosperidade” na expectativa de obtenção do retorno das doações que entregam nos templos.

Em todos os aspectos, o dirigismo impõe limites e interfere na livre iniciativa, seja por imposição legal, econômica, religiosa ou social. Os teóricos da economia deveriam rever um ensinamento feito por Joelmir Beting (1936 – 2012), jornalista econômico, que disse: “Em economia é fácil explicar o passado. Mais fácil ainda é predizer o futuro. Difícil é entender o presente”. E o presente não perdoa equívocos.

(*) Clésio Guimarães é empresário, professor, administrador de empresas e representante do CRA-Conselho Regional de Administração.