Despeço-me da cidade nesta noite de domingo. O ônibus cruza a ponte. De longe, os edifícios pequenos. Luzes alaranjadas. A metrópole se apequena. Sento na cadeira do corredor. Melhor para esticar as pernas. No escuro, além das luzes dos celulares, é nítida apenas a inscrição refletida em vermelho ao lado da janela: saída de emergência.
À esquerda, debruçada no colo da mãe, uma menina fala. Fala, fala, fala sem parar. Desde que partimos, coisa de 20 minutos. Tiro os olhos do celular por um momento para fitar suas sombras no breu: mãe e filha, algo em torno dois oito anos, agasalhadas uma pela outra nos 26°C impostos pelo ar condicionado.
Volto os olhos para a tela.
Ouço.
– Eu adoro conversar com Deus – diz a menina, baixinho.
– É? E o que você diz? – responde a mãe.
– Eu falo tudo que estou sentindo. Tudo mesmo. E peço proteção para você e para o papai. E para mim também. E, depois que eu digo tudo, sinto meu corpo tão quentinho. Sinto que é Deus me respondendo.
Fez-se um breve silêncio. Como se a mãe estivesse mastigando o que acabara de ouvir. Ter um filho deve ser mesmo tarefa árdua, penso eu aqui, enquanto olho para o céu. Afinal, que é que pode ser dito à altura da revelação da criança? A resposta veio logo em seguida, quando a mãe naturalmente retoma o diálogo.
– Deus gosta muito de você, sabia?
– Como você sabe?
– Ah, ele me conta.
– É mesmo, mãe?
– É, sim. Olha, aperta bem a minha mão. Tenho certeza de que Deus iria adorar se nós duas falássemos juntas com ele. Vamos fazer uma oração?
Começaram a rezar, sincronizadas, o Pai Nosso. E por algum tempo foi apenas o que se podia ouvir, além do barulho do motor. Fechei os olhos, inconscientemente. Revisitei as palavras aprendidas na catequese, provavelmente quando tinha a idade da menina. Amém.
Voltei a olhar para frente. Segui a seta vermelha do leitreiro de saída de emergência, que indicava a direita, e voltei a contemplar o céu, a vida e seus mistérios. Uma hora chegamos lá.
Guie-nos em paz, motorista.




