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Coluna

Desromantizando a maternidade

27 novembro 2020 - 15h18

Quando eu decidi ser mãe... Não, espera, eu não decidi ser mãe. Vou começar de novo. Num belo dia eu descobri que seria mãe, assim, no susto, num teste de farmácia. Eu surtei. Surtei porque, mesmo que eu um dia esperasse ter um filho, eu não estava preparada. Criar e educar um ser humano deveria ser curso em faculdades, não é possível. Preparamo-nos para tantas profissões, mas não existe algo no mundo que nos forme para a maior profissão de todas, que é ser pai ou mãe. 

Desculpe, precisei parar meu raciocínio, meu filho de três anos está chorando, me chamando do outro lado da cozinha preso por uma portinha de ‘cachorro’ improvisada na porta, que é a única coisa que me deixa trabalhar por alguns instantes. Onde eu estava? Ah, sim, nada nos prepara pra educar uma criança. E eu não estou falando sobre trocar fraldas ou dar um banho, isso você aprende na prática. E, acredite, você vai praticar bastante. Estou falando sobre especialistas que entendem como as crianças pensam e como nós, adultos, precisamos entender, mas não entendemos. 

Lembro que, durante a gravidez, depois dos meses de choros e vômitos e enjoos infinitos, comecei a sentir a tal culpa materna. Sentia culpa por estar mal, afinal, eu estava sendo ‘abençoada’ e todos aqueles sentimentos, dizem, passariam para o meu filho. Sentia-me mal, pois era privilegiada por manter meu trabalho, ter um marido ao meu lado enquanto muitas não têm nada disso. Desesperava-me constantemente e me reprimia por isso. Eu sou suficiente? 

A forma que encontrei de me acalmar foi me enfiando na internet para ler. Relatos e mais relatos de mães que estavam na mesma situação que eu. Mulheres enfrentando a maternidade, o puerpério (isso é tema pra outra coluna) falando da forma mais crua possível como aquilo tudo era doloroso. Decidi desromantizar a maternidade, ouvindo mulheres como a ‘Hel Mother’ no youtube, ou pediatras como o Daniel Becker no seu canal ‘Criar e Crescer’ e todo tipo de psicopedagogos que diziam como as crianças agem e pensam. Felizmente, tudo isso me acalmou. Ajudou muito, mas, definitivamente, nada te prepara pra tudo o que vem depois do nascimento da criança.

A privação de sono, a dolorosa amamentação (pra muitas), o misto de sentimentos, a sobrecarga, a culpa, o vazio ensurdecedor e a sensação de solidão.  Olhar-se no espelho e não se reconhecer, não saber mais quem você é no final das contas. Com um ser tão frágil e extremamente dependente dos braços, fui descobrindo aos poucos como lidar, não com ele, mas comigo mesma. Hoje, ele tem 3 anos e 9 meses e eu sinto que ainda estou descobrindo e que ainda estou longe de terminar esse caminho. A cada nova fase dele, descubro uma nova fase minha. 

Quando alguma amiga minha diz “não sinto vontade de ser mãe”, do fundo do meu coração eu entendo. Amo meu filho com todas as minhas forças, mas ninguém no mundo deveria ter o direito te dizer que, porque somos biologicamente capazes,  deveríamos ser mães. Somos desde pequenas criadas pra isso, mas sinto que não deveria ser assim. Ganhamos bonecas para cuidar, cozinhas para cozinhar, vassouras para limpar. Onde estão nossos brinquedos que nos ensinam e olhar para o outro lado do mundo? Damares Alves que me desculpe, mas o mundo precisa entender que não só mulheres deveriam ser preparadas pra isso. Digo isso respaldada na porcentagem enorme de mães solos e pais que podem escolher não serem pais e, às vezes, muito mal pagar suas pensões. 

Desculpe, preciso parar por aqui. Meu filho me grita, mas a gente conversa sobre isso uma outra hora. Até.