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Coluna

Capital especulativo

30 setembro 2021 - 15h46

Um interessante relato registrado nos evangelhos bíblicos fala a respeito de um milagre de Jesus, quando realizou a multiplicação de sete pães e alguns peixes, alimentando uma multidão de cerca de quatro mil pessoas. Na interpretação literal, destacamos o caráter sobrenatural da ação de Jesus. Segundo esse entendimento, Jesus fez um milagre físico, transformando uma pequena quantidade de pão e peixe em alimento para uma grande multidão. Jesus reafirmou com isso seu poder sobrenatural e sua divindade. Uma espécie de “mágica” que encantou a multidão, que passou a segui-lo por ver nele um ser divino, que resolveria todos seus problemas.

Por mais que se tenha tentado, até hoje não se conseguiu explicar cientificamente essa ocorrência, mesmo porque milagres não se explicam, simplesmente são aceitos pelos que creem.

No ambiente econômico encontramos fato semelhante ao constatar que R$ 338,5 bilhões de moeda física emitida pela Casa da Moeda e colocada em circulação pelo Banco Central (posição em 16/09/2021), se transformam em aproximadamente R$ 100 trilhões (valor estimado) em movimentação no mercado, “alimentando” a fortuna de investidores financeiros dos mais variados segmentos. 

A maior parte deste “milagre” é provocada pelos bancos, que ao emprestar dinheiro dos depósitos dos correntistas, alavancam um efeito multiplicador que não tem limite. Só para nos fazer pensar um pouco, se todos os correntistas bancários resolvessem retirar, ao mesmo tempo, o dinheiro que têm em depósito, os bancos não teriam como devolver, simplesmente “quebrariam”. Outra situação é o dinheiro dos depósitos oriundos do FGTS. O Governo aplica os recursos dos depósitos com a finalidade de gerar rendimentos. Se todos os trabalhadores fossem demitidos, não haveria dinheiro suficiente para cobrir os saques dos valores que teriam direito.

Não se discute a legalidade desses ganhos, o que se questiona é que o capital obtido de forma especulativa não contribui diretamente para o desenvolvimento do país, através do aumento da produção e geração de empregos. O capital de Produção, como é chamado o dinheiro aplicado em atividades produtivas, leva mais tempo para gerar ganhos reais, o que explica a escolha dos investidores pelo capital especulativo, que retorna de forma muito mais rápida e volumosa. A volatilidade desses capitais especulativos é tamanha que foi criada uma expressão que bem representa o caráter desse dinheiro: “capital motel”, pois entra e sai com alta rotatividade nas mais diferentes modalidades de aplicação, sempre à procura de ganhos cada vez maiores e em qualquer parte do mundo; afinal, o lucro é insaciável!

A “mágica” dos ganhos especulativos não possui explicação lógica, é meramente consensual, até que algo dá errado é tudo desmorona. A história registra a chamada crise de 1929 ou “Grande Depressão”, que aconteceu nos Estados Unidos, repercutindo no mundo inteiro. Pessoas vendiam tudo que tinham para aplicar na Bolsa de Valores, comprando ações de empresas. Em dado momento, o castelo desmoronou, houve excesso de produção nas empresas, os preços caíram vertiginosamente e o medo de perder levou os investidores a quererem sacar seus capitais, numa frenética corrida. Como consequência, excesso de oferta e o valor das ações despencando, levando todos a perderam. É parecido com uma montanha de espuma, visível e atraente, mas inconsistente, basta um leve vento para dissolvê-la.

Na verdade, o dinheiro foi criado para servir como intermediário geral em transações de compra e venda, e não como um capital para gerar mais dinheiro. Tanto que uma das condições para se criar dinheiro é que ele seja “fiduciário”, isto é, tenha garantia dada pelo órgão emissor oficial. Essa condição é que faz uma moeda ser forte, bem como agregar segurança e aceitabilidade.

Imagina se todos pudessem criar sua própria moeda. Ela perderia valor pelo princípio da raridade e o sistema econômico entraria em colapso. De certa forma é o que estamos começando a ver no momento com a chegada das “criptomoedas”.  Já se contabilizam 5.536 em todo o mundo, e a cada dia surge uma nova no mercado.  

A solução para estancar o cada vez mais atrativo e inseguro investimento em capital especulativo seria tributar as grandes fortunas, forçando o direcionamento dos recursos para o setor produtivo. Já existe um projeto nesse sentido no Congresso, que está parado há anos. Contudo, esperar que venha a ser aprovado é quase uma utopia, tal o comprometimento desses capitais com quem tem o poder de fazê-lo. 

Encerro com uma citação do Apóstolo Paulo num outro contexto, porém, não menos apropriado para o momento: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convêm”.