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Coluna

Avanços e retrocessos – terra amada aos 406 anos

20 novembro 2021 - 14h58

“Forasteiro, não há forasteiro, pois nesta terra todos são iguais.” Assim, Victorino Carriço (1912 – 2003) encerra a letra do hino de Cabo Frio. Constata-se que nove entre dez moradores da nossa cidade são migrantes ou descendentes, vindo dos mais diferentes rincões, principalmente Minas Gerais e região nordeste, e que participaram da transformação econômica do município ao longo desses anos.

 Ao traçar a linha do tempo, a partir do descobrimento, encontramos como principal atividade econômica a exploração do “pau-brasil”, madeira avermelhada de grande valor comercial no mercado europeu, utilizada principalmente para a produção de tintura para roupas. A extração foi tão intensa que esgotou as reservas dessa madeira em nosso litoral. Os anos que se seguiram foram caracterizados por atividades pesqueiras e agrícolas, feitas de forma artesanal, perdurando por longo tempo.  Podemos constatar que a substituição de uma economia de subsistência, baseada na pesca e agricultura, começou a partir do início do século XVII com a extração do sal, aproveitando as condições favoráveis da alta salinidade das águas, das elevadas temperaturas e os ventos constantes, responsáveis pela evaporação, fator determinante para obtenção do sal. Foi tão importante essa atividade que tempos mais tarde o sal foi denominado de “ouro branco”, atravessando gerações. Foram os índios tamoios os primeiros a iniciarem essa atividade nas terras cabo-frienses que eles chamavam de “Gecay”, nome de um tempero feito com sal grosso e pimenta. Mas logo houve restrições, por parte da Coroa Portuguesa, à exploração de salinas, que com essa medida criava um protecionismo aos importadores de sal, que provinha de Portugal. Somente em meados do século XVIII ouve a liberação e a atividade pôde se desenvolver, atingindo seu ápice entre os anos 40 a 80. A partir daí, começou haver o declínio.  Muitas salinas existentes eram de propriedade de portugueses imigrantes, que tinham recebido essas terras da Coroa.

Em função da abundância do sal na região, e as condições favoráveis, surgiram três importantes indústrias de transformação, gerando grande empregabilidade: a Álcalis, com a produção de barrilha, utilizando conchas extraídas da lagoa e sal; a Perinas, com sal refinado e bromo; e a Sal Cisne, também com sal refinado. Além de outras empresas menores que se dedicavam à atividade de moagem do sal grosso. A Refinaria Sal Cisne é a única que resta atualmente.

Sou testemunha da melhor fase da indústria do sal em nossa região. Quando adolescente, muitas vezes, nas férias escolares ia escondido de meus pais “puxar” sal nos cristalizadores das salinas de Perinas, como sub contratado. Era uma época de ouro para nossa região. Não tenho lembrança de desempregados! 

Prosseguindo na linha do tempo, em 1974, foi inaugurada a ponte Presidente Costa e Silva, a Rio-Niterói, facilitando o acesso à região e que de certa forma foi um marco para o setor turístico, responsável pelo incremento do desenvolvimento econômico. Evidentemente que a incipiente atividade turística deu ensejo ao aumento da construção civil, responsável pelo deslocamento de milhares de trabalhadores que migraram de outros estados e por aqui acabaram ficando. Há de se registrar que a efervescente especulação imobiliária ensejou a dilapidação do nosso rico patrimônio histórico.                                                                                                                                      
Com o ocaso da construção civil, vimos aparecer uma ocupação desordenada da periferia, gerando bolsões de pobreza que carecem ainda hoje da ação pública para sanear os problemas decorrentes.

Hoje podemos apontar o turismo como a principal atividade econômica da região. Não dispomos de grandes indústrias, ficando bem caracterizado o setor terciário como o predominante e maior empregador. Por outro lado, as prefeituras da região dependem basicamente dos repasses dos royalties do petróleo para sobreviverem, o que até agora têm conseguido, mas, até quando?

Em função de uma crise nos repasses dos royalties, que praticamente engessou o município no ano de 2015, não tivemos comemorações pelos 400 anos. Hoje, ainda não temos muito que comemorar. Solução? Sim, existe! Basta vontade, planejamento e austeridade.  

Fato é que Cabo Frio chega aos 406 anos, com avanços e retrocessos. “Mas o que distingue uma época econômica de outra, é menos o que se produziu do que a forma de produzir” (Karl Marx).