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Coluna

Aborto legal e seguro, pra ontem

25 janeiro 2021 - 12h13

Eu sei, eu sei, vai ser complicado falar sobre esse assunto que é polêmico por si só. Dentre todos os assuntos que eu poderia falar aqui, se não me engano, é o que mais vai me dar dores de cabeça. Antes de mais nada, se você perdeu alguma coluna anterior, já aviso aos desavisados que sou casada há dez anos, mãe de uma criança linda de quase 4 anos e, pasmem, para além dos preconceitos estabelecidos sobre nós, sou também feminista. Então, pra começar o assunto, não usarei minhas palavras, mas sim de R. Wilbert: “Ninguém gosta de aborto ou sonha um dia abortar. O aborto não é maneiro e ninguém acha que é. Nenhuma menina vai transar pensando “dane-se a proteção, se eu engravidar, eu aborto. Nenhuma mulher que abortou conta sobre isso com um sorriso na cara se achando o máximo. O aborto é uma solução para uma situação que começou errada. Pode ter sido um erro do casal que não se protegeu, pode ter sido um erro do método contraceptivo que falhou. Quando um homem e uma mulher cis-gêneros transam, não adianta: Sempre há a possibilidade de gravidez, por menor que seja. Camisinha fura, pílula falha, tabelinha engana, pessoas vacilam. A gravidez acontece. E essa menina ou mulher que ficou grávida, se não desejar ter o filho e optar pelo aborto, obviamente, não o fará com alegria, porque era, sim, preferível não estar naquela situação. É um direito que se deve ter para uma situação que se espera (e se faz precauções) para nunca acontecer. Aliás, tem, sim, um aborto feito com sorriso no rosto: o do homem, que larga a menina grávida e vai viver sua vida como se não fosse responsabilidade dele, como se não importasse se aquela criança vai nascer ou não; vai comer ou não; vai ser feliz ou não. Esse aborto, aos 3 meses ou aos 3 anos, esse é o que deveríamos combater.”

Eu gosto de usar esse texto pois ele fala por si só. O problema é que moramos na ideia de que se a mulher foi estuprada, a culpa é dela. Se a mulher abriu as pernas, a culpa é dela. Se a mulher engravidou, a culpa é dela. Que roupa ela estava usando? Mas ela não bebeu demais? Ela quis e depois voltou atrás? E a gravidez, que acontece, por que dois seres humanos se envolveram, cai sobre a cabeça de um só. Depois a gente precisa lembrar que mora no Brasil, um país onde a educação não é o forte. Escolas públicas em sua grande maioria nos seus limites, com profissionais esgotados e mal pagos, turmas com número de alunos além do que deveriam ter, fora a verba que já é mínima, por vezes, usurpada por corruptos. Quando tocamos no assunto “Educação Sexual” nas escolas, os conservadores piram: “vão ensinar sexo nas escolas”. Não, vamos ensinar às meninas e meninos que seus órgãos sexuais são seus, como eles funcionam, como identificar um possível assédio, como evitar gravidez. Ninguém quer dizer para crianças pequenas como se faz sexo, mas, sim, proteger essas crianças de possíveis casos. Preciso lembrar que, no Brasil, 53,8% das vítimas de estupro são meninas de até 13 anos? Quatro meninas dessa idade são estupradas por hora no país. Em média são 180 estupros por dia, registrados. A taxa de violência contra mulher subiu muito em 2020, 9 em cada 10 abusadores ou assassinos são da própria família.

Ninguém está pedindo para assassinar bebês. Os abortos acontecem diariamente, mulheres com dinheiro, fazem seus abortos seguros e “tranquilas”. Mulheres pobres sofrem com procedimentos clandestinos, e muitas vezes acabam morrendo por isso. Geralmente, mulheres, meninas, que não estão preparadas psicologicamente, financeiramente, para ter aquela criança. Encerro aqui, de novo usando as palavras de Vladimir Safatle: “Uma vida em potencial não pode, em hipótese alguma, ser equiparada juridicamente a uma vida em ato. Um embrião do tamanho de um grão de feijão, sem autonomia alguma, parasita das funções vitais do corpo que o hospeda e sem a menor atividade cerebral não pode ser equiparado a um indivíduo dotado de autonomia das suas funções vitais e atividade cerebral. Não estamos diante do mesmo fenômeno.”