Hoje volto no tempo três anos, oito meses e vinte dias – quando publiquei, numa quarta-feira, como de costume até então, aqui neste espaço, uma crônica, sob o título “Diálogo de surdos”. No texto, uma conversa entre duas pessoas tão interessadas apenas no que estavam falando que falhavam miseravelmente em compreender o interlocutor.
Seja coincidência ou não, dali pra frente não fiquei surdo, mas emudeci a escrita. Saí de fininho, à francesa, como se diz, e não voltei desde então ao posto de colunista fixo.
Fixo. Talvez tenha vindo dessa palavra a razão para a minha despedida. Os interessados em astrologia, como eu (confesso!), diriam que é coisa de aquariano. Uma aversão à rotina. Fadiga mesmo, tédio. Sei lá, pode ser. Comprovar-se-ia a tese pelo fato de que, há algum tempo, meus companheiros de redação já observavam minhas tentativas de escapulir da obrigação semanal, um fardo pesado sobretudo quando a ocasional falta de assunto te deixa de cabeça virada, do café da manhã até a bendita hora de sentar e escrever.
Eles debochavam:
– É golpe! Vai ter coluna, sim.
Bons jornalistas que são, eles notaram bem a conspiração solitária.
Como um Temer às avessas, eu mesmo me destituí, arrumei meus trapos e corri para longe, não do Palácio Jaburu, mas desse edifício sempre em construção, sempre inacabado, espaço de sonhos e de realidade, de alento e de tristeza, de guerra e de paz, chamado escrita.
Tal qual qualquer golpe, foi deselegante. Nem mesmo um adeus. Nem mesmo um até logo. O que devem ter pensado minha meia dúzia – será que chegava a isso? – de leitores?
Ah, e aqui vale um pequeno parêntese: em jornal impresso, cujo tempo é notadamente diverso do que impera na internet, às vezes quem escreve fica do lado de cá se perguntando o que “pensa, onde vive, o que come” o leitor. Se nas redes sociais te xingam, em questão de segundos, por qualquer palavra mal colocada, por aqui pode demorar um bom tempo até o recebimento do que uns gaiatos têm chamado de feedback, anglicismo tosco – redundância, perdão – para se referir à crítica a um determinado trabalho. Não tenho dúvida: repórter e colunista de jornal impresso sofrem de carência. Fecha parêntese, até porque o parágrafo já está longo demais e quem chegou até aqui já pode estar se coçando para ir embora.
Sei que, verdade seja dita, não cabe à posição dos astros a minha decisão de parar de escrever naquele momento. Não sei, verdade seja dita, mais uma vez, o exato porquê. Entretanto, tenho descoberto, sem abrir mão da dor sentida ao tocar em feridas há tanto ignoradas solenemente, os motivos para a demora do retorno.
O hábito de escrever, há um bom tempo, fez parte de mim. Parte da minha personalidade. Da minha rotina. De como eu mesmo compreendia minha existência. Por que, então, não voltar a escrever?
Não voltei porque não quis. Porque não sentia vontade. Porque, como água que fura a pedra dura, foi se esgarçando o tecido que liga o “eu” a verbos que nos ancoram à presença em nós mesmos: fazer, estar, sentir, ser... Nesse caso, o que deteriorou o tecido foi a própria vida, implacável em sua condição precípua de nos fazer sofrer, seja lá qual for o caminho escolhido, mas sobretudo um mal capaz de nos cegar, calar, paralisar: depressão. Sim.
Em outras palavras, não retornei a escrever porque deixei de ser um pouco eu. Durante bom tempo, tentei só seguir o fluxo. Piloto automático, sabe? Enquanto o corpo vagava, os pensamentos gritavam, fervilhavam: “Eu não quero isso, mas o que eu quero? Eu não sou isso, mas o que eu sou? O que estou fazendo aqui? Qual a razão disso tudo? Eu quero mesmo fazer parte? Eu me sinto parte? O que eu quero? Para onde vou?”.
Ouvi dizer outro dia que é no fundo do poço que tomamos força para pegar impulso. Faz sentido. Deve ser por isso que, abusando das metáforas, enfim, chegou a hora de levar o velho tecido à costura – e, no final das contas, o tempo do retorno é o mesmo tempo de um remendo feito com capricho.
Quando disse à minha amiga-irmã Fernanda Carriço que voltaria com a coluna, dei apenas uma condição:
– Só não quero escrever sobre política.
E ela:
– Escreve sobre o que você quiser, cara.
Voltei 832 dias para um reencontro comigo, para conseguir ler no vazio niilista do hiato prosa e poesia – portanto, impossível seria, neste momento, não escrever sobre mim. Espero aqui continuar por um bom tempo.
O uniforme não está totalmente cozido – e talvez nunca fique, é verdade –, mas ao menos consigo, apesar da miopia, voltar a enxergar nele a inscrição: Rodrigo Cabral.




