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Secretário de Cultura de Cabo Frio, José Facury, completa 50 anos de carreira

Trajetória do ator e dramaturgo é permeada pelos “anos de chumbo” da ditadura militar

 

01 agosto 2014 - 12h23Por Rodrigo Branco
Secretário de Cultura de Cabo Frio, José Facury, completa 50 anos de carreira

Ele veio de longe, da solar e colorida São Luís, com suas fitas e azulejos do casario colonial. E foi com luz, cor, brilho e fantasia que o dramaturgo, professor de Artes Cênicas, ator e diretor teatral José Facury Heluy, 66, construiu uma carreira que, este ano, completa meio século sobre os palcos mundo afora.

A efeméride coincide com outra importante data: a de 30 anos de chegada a Cabo Frio, onde ocupa, desde o início de 2013, o cargo de secretário municipal de Cultura. Apenas uma das poucas interrupções de trajetória que remonta um dos períodos mais negros da História do Brasil: o golpe militar de 1964.

O então adolescente maranhense já estava envolvido com política e militava no Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), quando o Marechal Castello Branco chegou ao poder e o grupo foi extinto. Logo viria o ingresso no Teatro Experimental e a estreia sob a ribalta, em uma montagem de “Gimba, o presidente dos valentes”, de Gianfrancesco Guarnieri.

– O CPC foi criado em 1962 e foi o norteador de um mergulho na brasilidade e do trabalhador brasileiro. Em 65, vim para o Rio, onde tentamos reaglutinar o CPC, mas com o AI-5, em 69, me refugiei no Maranhão onde fiquei por cinco anos – relatou Facury.

Os chamados “anos de chumbo” não refrearam a verve criativa do também cenógrafo, iluminador e bonequeiro, habilidades adquiridas na prática artesanal que caracteriza as artes cênicas.  As “tesouradas” promovidas pela Censura Federal eram frequentes e todos os textos eram enviados para Brasília para análise prévia. Censores assistiam às pré-estreias dos espetáculos e, não raro, os proibiam.

– Foi um momento cruel da criatividade brasileira, mas mesmo assim ninguém parou de criar – conta ele, que jamais se afastou da atividade político-sindical.

Uma turnê de nove meses pela Europa, em 1977, com a peça “Tempo de Espera”, de Aldo Leite, reforçou conceitos e o compromisso em mostrar a realidade brasileira. As portas no Velho Continente foram abertas por exilados, como o teatrólogo Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido. Ele conta que outras referências foram importantes para sua formação.

– Entre os autores, gosto muito do Nélson Rodrigues, que me encanta e faz viajar, porque tem a “psiqué” da família brasileira. Gosto como ele desenvolvia o diálogo: fluentes, fáceis e sempre inusitados – diz ele, que também cita Plínio Marcos, autor de “Navalha na Carne”.

A experiência em terras europeias foi preponderante para a continuidade da carreira de Facury, sobretudo na chegada à Região dos Lagos, em 1984. O então grupo Ziembinski, formado por três casais, incluindo Facury e a mulher, a atriz Tânia Arrabal, cresceu e deu origem ao “Creche na Coxia”, nome em alusão às crianças que deram origem a uma nova geração do teatro cabofriense, entre elas  um de seus filhos, o ator Ravi Arrabal Heluy, que participou da  recente montagem da peça “A Ilíada”, de Homero, encenada no Teatro Municipal da cidade, no último fim de semana.

No entanto, nenhum “papel”, ele garante, foi mais difícil em toda a sua carreira do que a passagem dos palcos para os gabinetes há um ano e meio.

– No teatro, você decora, improvisa, usa as técnicas e se submete aos aplausos ou as vaias da plateia. na gestão pública, você depende do orçamento e da burocracia. O personagem não acaba quando a cortina fecha. Aliás, ela não fecha nunca. É de vidro, onde as pessoas podem jogar pedra – comparou Facury.

Nada que provoque seu arrependimento. A propósito, ele não se lamenta de nada.  

– Gostaria apenas de ter tido a coragem de encarar o teatro como profissão. Na trajetória, eu me dividi muito – conclui.