Assine Já
segunda, 16 de dezembro de 2019
Região dos Lagos
30ºmax
21ºmin
Apartamento
AP REC BANNER
festa

Performance satânica no polo avançado da UFF de Rio das Ostras traz à tona um acalorado debate

Limite de liberdade de expressão divide opiniões

04 junho 2014 - 13h57Por Gabriel Tinoco
Performance satânica no polo avançado da UFF de Rio das Ostras traz à tona um acalorado debate
Afinal, a liberdade de manifestação artística tem limite? Se tiver, quais limites são esses? Os questionamentos vieram à tona depois que ganhou repercussão nacional uma performance realizada da festa ‘Xereka Satânik’, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Rio das Ostras, na semana passada, quando várias pessoas ficaram nuas e uma menina chegou a ter o órgão genital costurado. O evento foi realizado por alunos do curso de Produção Cultural. A Polícia Federal investiga o caso. Em busca das mais variadas opiniões sobre o assunto, a Folha ouviu integrantes de diferentes segmentos da sociedade.
De um lado, há os que enxergam a performance como um ato de libertação feminina. De outro, há os que não abrem mão das críticas. O secretário de Cultura de Rio das Ostras, Cosme dos Santos, admite que não gostou.
– Não penso que a manifestação seja legítima. Todos devem ter o direito de ir e vir. As pessoas têm que se expressar realmente. Mas, no momento em que alguém agride visualmente uma sociedade inteira, a situação muda. Não vejo como um bom evento. Houve um exagero quando eles fizeram aquelas manifestações todas. Tem muita gente que não esperava e nem queria ver aquelas cenas – comenta o secretário.
Não é o que pensam as autoras da página ‘Blogueiras Feministas’, que emitiram comunicado em apoio ao evento: “É muito claro que esse tipo de ação se trata de uma performance. A mulher que teve o órgão genital costurado fez uma performance extrema que pretende provocar várias reações e questionamentos. As mulheres envolvidas, infelizmente, já são perseguidas com a divulgação das imagens. O corpo humano não deve ser tratado como espaço de disputa social. Principalmente o corpo de uma mulher.” A participante que teve a genitália costurada é a mesma que introduziu uma santa na vagina durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
Mas, como diz o ditado, para toda ação há uma reação. E muitos são os que desaprovam manifestações desse tipo. Para o filósofo Vitor Júnior, formado no Seminário São José de Niterói, este é o retrato do que classifica como baixo nível moral da sociedade.
– É inegável que a arte é filha do tempo. A arte reflete os valores que norteiam uma sociedade. O canto gregoriano, a música clássica e o funk são chaves das culturas que os produziram. Portanto, admito que existe uma arte subversiva e que se impõe como um culto à feiura. Manifestações como essa que ocorreu em Rio das Ostras expressam o nível moral pouco objetivo e muito democrático das consciências de várias pessoas. Se a arte é expressão de um pensamento, resta analisar a ideologia desse pensamento. O que esse grupo defende é o ódio à civilização que foi construída através dos pilares da família, da religião, da tradição e da propriedade. Cada pessoa precisa entrar neste debate. Esse movimento de ruptura não vai nos levar a um lugar bom – opina.
Entretanto, alunos da universidade argumentaram que simplesmente protestavam contra o alto índice de estupros na cidade. E que o objetivo da performance era, na verdade, gerar uma reflexão sobre o tema. Comentários na página do evento no Facebook classificaram as críticas como ‘conservadores, moralistas e legalistas’. O professor responsável pelo Departamento de Artes e Estudos Culturais do curso, Daniel Caetano, saiu em defesa dos alunos.
“Não vamos aceitar nenhuma baixaria. A universidade pública é um espaço de estudos e conhecimentos que não devem ser nunca censurados. Pondo os pingos nos is: a artista que realizou a performance estava em plena posse dos sentidos e o fez porque quis. Nenhum aluno ou qualquer outra pessoa foi constrangido ao fazer nada. Nenhum ser humano tem o direito de dizer à artista o que ela pode ou não fazer com o próprio corpo. Qualquer forma de intimidação ao curso, alunos ou participantes do evento será considerado por nós como censura. E assim será denunciada conforme a Constituição Brasileira nos garante”, defendeu o professor em texto publicado no Faceboook, com mais de 200 curtidas.
O posicionamento, entretanto, não encontrou eco em nota oficial divulgada ontem pelo Polo Universitário de Rio das das Ostras (Puro) da Universidade Federal Fluminense. “Conforme amplamente divulgado pela mídia impressa e televisiva, no dia 28 de maio de 2014, quarta-feira, ocorreu um evento no Polo Universitário de Rio das Ostras (Puro) da UFF, que gerou um grande número de críticas e denúncias de ilegalidades. A Universidade Federal Fluminense (UFF), por meio de sua Direção Central, não compactua com qualquer tipo atividade que, desvirtuando de sua essência institucional, extrapole os limites do razoável, atentando aos valores da liberdade e igualdade, ou ofendendo a dignidade da pessoa humana.”
O ator cabofriense Fábio Carvalho questiona os limites das liberdade de expressão.
– Não quero julgar sem conhecer profundamente os motivos que impulsionaram o movimento. Já aconteceram performances desse tipo na década de 1970, justamente para chocar a sociedade. Por outro lado, também penso que até que ponto os artistas podem chegar? Não devemos passar por cima das leis e muito menos agredir as pessoas. Sempre pedimos pela liberdade de expressão, mas também devemos pensar no que invade o espaço das outras pessoas. O artista deve ter essa consciência.
A pastora Andréa Negreiros, também de Cabo Frio, aumenta o tom: afirma que os protagonistas da performance são ‘almas aprisionadas e conduzidas à autodestruição’.
– Infelizmente, estamos num mundo muito enérgico. As pessoas se prendem a tantos afazeres e acabam ficando mais solitárias, tristes e depressivas. É exatamente esse estado que traz a diversão de maneira exagerada. As pessoas não têm um limite. Tentam passar por cima das leis. Esse evento, onde jovens aproveitam para declarar que são livres, faz com que provem a falta de amor próprio. São almas aprisionadas e conduzidas à autodestruição – comenta a pastora Andréa Negreiros.
Mas as opiniões ganham força em todos os pontos de vista. Em sua postagem no Facebook, o professor Daniel Caetano afirmou: “a laicidade assegura a qualquer manifestação religiosa o mesmo grau de respeitabilidade: sejam missas católicas, evangélicas, judaicas, budistas ou satânicas.”
E a discussão está longe de acabar...