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Dados mostram que homicídios sobem mesmo com aumento de prisões

Ligação entre a maior parte dos assassinatos e o tráfico é admitida pela própria polícia

 

06 agosto 2014 - 11h23Por Rodrigo Branco
Dados mostram que homicídios sobem mesmo com aumento de prisões

Cabo Frio vive um momento contraditório no que se refere à sua segurança pública. A população assiste, alarmada, ao crescimento da taxa de homicídios, conforme atestam os números da Secretaria Estadual de Segurança Pública, ao mesmo tempo em que são cada vez mais frequentes os registros de apreensões de drogas e armas e de prisões, algumas de fugitivos considerados de alta periculosidade, como as de “Tatu”, “Gabriel G3” e “Parrudo”, ocorridas na semana retrasada.

O dilema, portanto, está imposto: a crescente produção policial não está sendo suficiente para intimidar as ações criminosas, a maioria de grupos e facções organizadas em busca de domínio no comércio de drogas.  A ligação entre a maior parte dos assassinatos e o tráfico é admitida pela própria polícia e constantemente atribuída à migração de criminosos da capital e cidades vizinhas egressos de comunidades com Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Os dados são preocupantes.  O último relatório do Instituto de Segurança Pública (ISP), órgão vinculado à secretaria, com números referentes ao mês de maio, aponta para um cenário que se desenhava em meses anteriores, mas que naquele mês não encontrou paralelo desde o início da série histórica, medida a partir de abril de 2002. Somente em 2014, foram 73 mortes violentas até o momento, das quais 23 apenas no quinto mês do ano. Isso representa um aumento de 74% em relação ao mesmo período no ano passado.

 Os números foram publicados no mesmo período que uma matéria da versão online da Revista Exame, da Editora Abril, aponta a cidade como a segunda mais violenta do estado, com índice de 63 assassinatos para um grupo de 100 mil habitantes, atrás somente de Mangaratiba, na Região Metropolitana (86,4 homicídios/100 mil habitantes). Vale ressaltar que neste caso, os dados são de 2012, época em que os atuais responsáveis pelo 25º Batalhão de Polícia Militar, o tenente-coronel Ruy França e  da 126ª DP (Cabo Frio), delegada Flávia Monteiro ainda não respondiam pelas unidades.

A tendência, contudo, é rebatida pela titular da delegacia da cidade. De posse de dados não-oficiais, ela argumenta que o trabalho das forças de segurança tem surtido o efeito que a sociedade cabofriense espera.

– Trabalho com afinco, junto com as instituições como a Polícia Militar, e contando com as denúncias da população, que são importantes. A violência tem diminuído. Quando assumi eram cerca de 30 homicídios por mês. Hoje tenho nove homicídios em junho e julho, até o dia 19. Reduzi um terço. Então, a estratégia é continuar fazendo o trabalho – afirma.

De fato, as estatísticas apontam para o expressivo e gradual crescimento na produção policial, pelo menos no que se refere à quantidade. Se em 2012, até maio foram computadas 210 apreensões de drogas, 54 de armas e 13 prisões; no ano seguinte, esses números subiram para 263–68–87, respectivamente. Na atual gestão, do comandante França, que assumiu em dezembro de 2013, os policiais sob seu comando resgistraram 430 ocorrências de apreensão, sendo 331 de drogas e 99 de armas e realizaram 306 prisões, o que significa  um acréscimo de  mais de 250% em relação ao ano passado. Para os especialistas, no entanto, tamanho volume não representa, necessariamente, qualidade. O coronel PM Robson Rodrigues, um dos responsáveis pela política de implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Estado e diretor da ONG Instituto Igarapé argumenta que a política tem sido insuficiente.

– Prendemos muito, mas prendemos mal. O Brasil tem a terceira maior população carcerária em números absolutos, mas temos taxas ínfimas de solução de crimes. Se fizermos um raio-X da população carcerária, a maior parte diz respeito a crimes patrimoniais e a usuários de drogas, que não tem potencialidade – pondera.

Para ele, mais do que somente partir para o enfrentamento  puro e simples, o mais importante é investir em políticas públicas que valorizem a análise de dados e a inteligência, por meio da ação de gestores locais e participação da comunidade, sob pena de apenas “enxugar gelo” em vez de combater aefetivamente a questão.

Nesse sentido, a implantação dos Conselhos Comunitários de Segurança (CCS) podem ser considerados avanços, segundo os estudiosos. Em Cabo Frio, ele se reúne mensalmente em diferentes bairros. Sua vice-presidente, a empresária Patrícia Cardinot destaca a integração do trabalho da polícia e mostra entusiasmo com o modelo.

– A comunidade local nos ajuda bastante se fazendo presente e nos informando seja por meio de denúncia anônima, direta ao 25º BPM ou  nas reuniões do CCS, sempre realizadas em bairros diferentes com a presença de representantes dos órgãos competentes e representantes da comunidade e associações – relata.

Na opinião do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Cabo Frio, Eisenhower Mariano, a raiz do problema pode estar na legislação penal brasileira, mas adverte que qualquer mudança deve vir da sociedade.

– A população tem que se mobilizar no sentido de pressionar as autoridades para realizar as mudanças necessárias – diz.