As fortes chuvas das últimas semanas, que causaram transtornos e alagamentos em várias cidades da Região dos Lagos, também foram responsáveis por impactos distintos na atividade pesqueira na Lagoa de Araruama. Segundo Francisco Guimarães, o Chico Pescador - liderança regional da pesca e coordenador da Câmara Técnica de Pesca e Aquicultura no Comitê de Bacia Hidrográfica Lagos São João (CBHLSJ) - o cenário é de contraste.
– A pesca da tainha esteve bastante forte nessas últimas semanas. Já a pesca do camarão, e a pesca de gancho (de peixe) foram afetadas porque as fortes chuvas trouxeram, além da questão do esgoto, muitas outras coisas que desembocam aqui na área 2 da lagoa - explica.
De acordo com o coordenador, o problema se concentra nas áreas 1 e 2 da laguna. A área 1 compreende o trecho que vai do Forte São Matheus até a ponte Wilson Mendes, no Baixo Grande, em São Pedro da Aldeia. Por ser a porção de menor profundidade, o acúmulo de resíduos é imediato.
– As áreas 1 e 2 são os pontos atuais de pesca do camarão. E aí, tudo o que é jogado para ali acumula e descaracteriza rapidamente. A água chega a ficar bem menos salgada do que na área 3 – detalha Chico.
O impacto vai além do despejo sanitário. Chico Pescador alerta para o volume de resíduos sólidos, como plástico, canudos e copos, que chegam à lagoa através dos canais macrodrenais e drenais. Esse lixo, segundo ele, compromete diretamente o trabalho dos pescadores.
– Isso atrapalha muito não só a pesca de gancho, mas também a pesca de arrasto por causa do lixo na rede. Temos problemas com agulhas de cerco na área 3, e isso prejudica bastante – alertou.
Outro fator crítico apontado por ele é a proliferação de algas, especialmente na região entre a Praia do Siqueira e Campo Redondo. “As algas, durante a noite, consomem bastante oxigênio, criando uma barreira física para os pescados circularem nessa área”, afirmou.
Apesar dos problemas estruturais, Chico informou à Folha que a tainha segue seu curso natural, beneficiada pelo aporte de nutrientes pós-chuva. Ele também explicou que esta é a época da espécie.
– Quando tem uma salinidade muito forte, uma água muito clara, isso cria um ambiente pobre de nutrientes. E a tainha procura justamente as épocas pós-chuvas para se alimentarem, criarem a gordura para colocar as ovas, e ir para o mar para desovar - explicou, lembrando que o processo de lixiviação da matéria orgânica vinda das restingas e da Serra da Sapiatiba alimenta a água e equilibra a salinidade, permitindo que o peixe complete seu ciclo.
Quanto à limpeza das praias lagunares e a melhoria da qualidade da água da lagoa pós-chuvas, a expectativa de Chico Pescador é de que a recuperação ocorra de forma gradativa, dependendo diretamente das condições climáticas.




