Os recentes ataques entre Estados Unidos e Irã, no Oriente Médio, já começam a provocar uma alta no preço internacional do petróleo. E os reflexos disso devem chegar em breve ao bolso do morador da Região dos Lagos. A preocupação, no entanto, vai além do preço da gasolina na bomba: a instabilidade também pode afetar o preço do frete, dos alimentos e de toda a cadeia logística que depende do diesel. Em entrevista à Folha, o administrador e mestre em economia empresarial, Leandro Cunha, explicou como a destruição de petroleiros no Golfo Pérsico pode afetar diretamente o Brasil em um ano que promete ser de incertezas econômicas.
Folha - Por que uma guerra a milhares de quilômetros de distância, envolvendo o Irã e os EUA, pode atingir diretamente o bolso do consumidor em Cabo Frio e demais cidades da Região dos Lagos?
Leandro - A guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel mexe bastante com o mercado de petróleo porque o Irã é um grande produtor que fica situado no Golfo Pérsico, e controla a entrada e saída de embarcações pelo Estreito de Ormuz. Essa guerra no Irã pode afetar um quinto do mercado mundial de petróleo, atingindo o comércio e a circulação de petroleiros (do estreito de Ormuz para o Golfo Pérsico) que abastecem e levam o insumo para o mundo inteiro. Isso vai criar o que a gente chama de “choque de oferta”, ou seja, vai diminuir a disponibilidade de petróleo no mundo, e com isso os preços da commodity tendem a aumentar. Com a oferta menor e a demanda se mantendo a mesma, o preço do barril vai ser pressionado para cima. Como existe a paridade de preços internacionais, e o Brasil segue essa lógica no preço que a Petrobras pratica no mercado nacional, esse choque vai afetar o valor praticado no Brasil. A Petrobras vai determinar o preço nacional levando em consideração o aumento internacional, e isso vai afetar o preço final principalmente de petróleo e derivados. A gasolina e o diesel devem ser afetados com esse choque de oferta.
Folha - Considerando que os EUA afirmam ter destruído 17 navios e atingido quase dois mil alvos no Irã, como isso encarece o frete internacional
Leandro - Além do choque de oferta que mencionei, com menos navios circulando o frete também encarece devido à menor disponibilidade de petroleiros atuando. Isso ocorre tanto por questões de segurança quanto pelo impedimento de acesso às rotas. Aqueles que conseguirem fazer o transporte do petróleo vão cobrar valores mais altos,e isso vai encarecer também o preço do produto.
Folha - O Brasil é autossuficiente em produção, mas ainda importa derivados. Como essa dependência externa nos torna vulneráveis em um cenário de guerra total no Oriente Médio?
Leandro - Nós já estivemos mais próximos da autossuficiência na fabricação de derivados: gasolina, combustíveis e óleos. Só que essa tendência foi prejudicada nos governos de Michel Temer e de Bolsonaro, que vendeu e privatizou algumas refinarias, diminuindo a produção. O governo Lula vem recompondo essa produção de derivados, mas a gente ainda não é auto suficiente. Temos algumas outras saídas, como o biocombustível, o etanol misturado na gasolina e o biodiesel, que são algumas manobras que podem ser feitas para mitigar esses riscos e essa dependência de derivados do mercado internacional. Mas em um curto prazo a gente tende, sim, a ser afetado. E essa é uma oportunidade para a nossa soberania pensar, no médio e longo prazo, na capacidade que temos para aumentar a produção de derivados de petróleo, caminhando para a autossuficiência e reduzindo nossa vulnerabilidade de guerras e do mercado internacional.
Folha - Em uma escala de risco econômico, quão próximo estamos de uma crise de desabastecimento ou de um aumento nos preços, similar ao que vimos em crises históricas do petróleo?
Leandro - Existe um risco grande de afetar os preços, e isso gera inflação e consequências na cadeia produtiva. Não sabemos medir, ainda, em que escala esse aumento vai se dar, mas o Brasil tem capacidade de amortecer esse impacto e de evitar um desabastecimento no médio e longo prazo, principalmente. No curto prazo, precisa ser avaliado porque ainda temos uma dependência do mercado internacional, mas há capacidade de aumentar a produção de derivados de petróleo nas refinarias. Tem que ser medido o que faltaria para atender o mercado interno. Eu acho que o risco maior é de preço, maior do que de desabastecimento.
Folha - A Petrobras possui mecanismos financeiros, ou reservas técnicas, para "amortecer" essa alta internacional e evitar que o repasse seja imediato e integral para o consumidor brasileiro?
Leandro - A Petrobras tem sim capacidade de absorver o impacto no preço, mas existem pressões do mercado, dos acionistas, que vão querer que ela pratique valores mais altos, condizentes com a paridade de preços internacionais. Vai ser uma guerra de braço entre governo e acionistas, porque a Petrobras é uma empresa de economia mista, então não é o governo que manda sozinho nela. Ele é o maior acionista, mas sofre pressões para aumentar os preços, para repassar esses aumentos dos derivados… Mas, sim, a Petrobras tem condição de absorver bastante desse impacto porque ela suporta, dando lucro, até o preço do barril abaixo dos 50 dólares. Então ela teria capacidade de aguentar e amortecer esse impacto nos preços. Só vai depender da política de preços que o governo vai querer implementar, e das pressões do mercado sobre a Petrobras e sobre o governo.
Folha - Além da gasolina e do diesel, quais outros setores da administração pública e privada você acredita que serão mais "atropelados" por esse aumento de custos?
Leandro - A gente pode ter aumentos de preço no querosene de aviação, para a aviação civil e comercial. A gente pode ter aumentos no custo do frete em toda a cadeia produtiva brasileira, porque os preços dos alimentos e dos produtos que o Brasil comercializa internamente dependem da matriz rodoviária, e o aumento do preço do diesel afeta isso diretamente. Vai afetar o frete internacional também, porque tem o diesel marítimo que é derivado de petróleo, e vai encarecer o custo. Então, todo o comércio internacional pode ser afetado por essa crise do petróleo. Mas dentro do Brasil, mercado interno, a Petrobras, por ser uma empresa estatal, ela pode amortecer em grande parte esse impacto.
Folha - Em quanto tempo, após esses ataques massivos reportados nos últimos dias, devemos começar a ver o reflexo nos preços das refinarias e, consequentemente, nos postos?
Leandro - Os sinais dados pelo governo do Irã e dos Estados Unidos é de que eles podem sustentar essa guerra por um período maior do que o mundo gostaria e suportaria. É um efeito indesejado no mundo inteiro. Outros países estão tomando ações para se defender militarmente, porque isso pode se alastrar para outras regiões. E o governo Trump é completamente sem freio, imprevisível. Então, a gente não sabe se isso vai se tornar um novo normal. Vai depender da resistência do governo iraniano, e dele se submeter aos interesses norte-americanos e de Israel. A tendência é que esse conflito perdure pelo ano 2026 todo, e a gente tenha realmente que conviver com um cenário complexo e adverso no mercado internacional de petróleo. E, por consequência, tanto externamente quanto internamente, no Brasil teremos que conviver com um cenário bastante adverso. O reflexo disso leva algum tempo, mas não deve demorar muito. Os valores do barril de petróleo já estão mais altos e devem perdurar por semanas, impactando o preço de paridade internacional que a Petrobras pratica. Acredito que isso deve chegar na bomba de combustível em um mês ou dois meses.
Folha - Para os gestores municipais da nossa região, qual deve ser o "plano de contingência" administrativo para lidar com a provável queda na atividade econômica decorrente da inflação dos combustíveis?
Leandro - Apesar desse choque, a gente não deve ter uma diminuição na produção de petróleo: isso não está previsto. Não é para criar um alarme, apertar o botão vermelho de que a gente vai viver uma catástrofe, não é isso. Por não ter diminuição da produção, não há motivos para os governos se preocuparem em termos de receita. Mas em um cenário de choque de petróleo a cautela sempre é necessária. Na verdade, eu sempre defendi que os gestores municipais trabalhassem muito para diminuir a dependência da arrecadação de royalties do petróleo fazendo políticas de austeridade e de equilíbrio fiscal. O royalty sempre foi uma receita variável, que depende da produção do dólar e do preço internacional do petróleo. Por isso, a gente sempre recomenda que os gestores diminuam a dependência, diversifiquem a economia das cidades para que esses royalties sejam aplicados na melhoria da infraestrutura das cidades mas, sobretudo, para diversificar a economia. Infelizmente, na prática, não é o que a gente vê acontecer. Pelo contrário: aumenta-se a estrutura, aumenta-se o número de contratados e da folha de pagamento… Esses são os sinais dos gestores que a gente vê aqui na Região dos Lagos. Desperdiçamos muitos anos de arrecadação com ações e políticas que, eu diria, equivocadas. Perdemos oportunidades de fazer com que as economias das cidades se tornassem mais pujantes. Esse recurso tem que ser muito bem aplicado em benefício da sociedade, do interesse público e não de interesses particulares de prefeitos, de reeleições, interesses eleitorais. Essa é a grande dificuldade que os gestores da região têm, de fazer políticas permanentes sem causar desequilíbrios orçamentários e financeiros.





