A vida, a poesia e o legado de um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira vão ganhar os palcos da Região dos Lagos este mês. Produzido em Cabo Frio, o espetáculo teatral musicado “Não Quero Choro Nem Vela: Vida e Obra de Noel Rosa” tem sua estreia oficial confirmada para o próximo dia 20, às 20h, no Teatro Municipal Dr. Átila Costa, em São Pedro da Aldeia. Durante duas horas a montagem vai celebrar o aniversário de 115 anos do compositor, propondo um encontro sensível com a trajetória do "Poeta da Vila", revisitando clássicos que atravessam gerações. Os ingressos custam R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia), e estão à venda pelo site Sympla. A classificação indicativa é 16 anos.
Com texto assinado pelo roteirista Geraldo Afonso e direção do ator Daniel Ericsson (do filme “Ainda Estou Aqui”), a produção da Samburá Multiartes é fruto de anos de pesquisa. O título é uma referência direta à música “Fita Amarela”, carregando uma forte carga simbólica sobre a filosofia de vida de Noel, que faleceu precocemente aos 26 anos.
– Noel Rosa, ao invés de preservar a saúde, preferiu viver intensamente. Não se preocupava com a morte. O que realmente queria era “uma fita amarela gravada com o nome dela”. Na sua curta passagem por este mundo, foi boêmio contumaz. Homem de muitas mulheres, minou sua saúde desfrutando da vida noturna na Lapa e participando de serenatas pelos bairros de Vila Isabel, Tijuca e adjacências, além de ser viciado em bebidas geladas, de preferência a cerveja Cascatinha. Quando estava em Belo Horizonte, na casa da tia Carmem, em busca da cura para a tuberculose, o que disse para tia reflete sua filosofia de vida. A tia o aconselha: “Você tem que se cuidar, Noel”. Ao que ele lhe respondeu: “Quem muito se cuida, pouco vive” - relembra Geraldo.
O roteirista revelou que o espetáculo começou a ganhar forma em meados do ano passado, originalmente como uma peça em três atos que se mostrou inviável pelo alto custo. O desafio atual foi sintetizar as 259 músicas registradas e a biografia densa do artista em uma apresentação dinâmica.
– Foi difícil escolher 26 músicas para o espetáculo. A vida dele daria uma série na Netflix. Sua infância, a passagem pelo Colégio São Bento, os prostíbulos aos 15 anos, a briga musical com Wilson Batista e as mulheres que foram suas paixões. Noel tinha três grandes paixões na vida: a música, a boemia e as mulheres – contou o roteirista.
A montagem destaca a potência artística da Região dos Lagos. Segundo o diretor Daniel Ericsson, o processo de seleção do elenco buscou artistas que tivessem familiaridade com a música, o canto ou a dança para materializar o texto de Geraldo.
– Nossa região tem pouco fomento à cultura, o que nos deixa talvez com a falsa impressão de escassez artística. Não é o caso. Temos uma profusão de artistas de primeira categoria. Alguns são artistas solos em suas carreiras, e no nosso processo os talentos convergem para o bem maior que é o espetáculo. Quero aproveitar ao máximo o talento de cada um a serviço do espetáculo – explicou o diretor.
No palco estarão Kéren-Hapuk, Roberta Sant’Anna, Manuela Dominato, Diego Vivas, Yuri Vasconcellos, Simon Soul e Gustavo Seabra. A sonoridade do universo de Noel ganha vida com os músicos Miguel R. Hevia e Vitalino. Para Daniel, o musical funciona como uma ponte entre o passado e o presente.
– O espetáculo apresenta situações de vida boas e difíceis vividas pelo artista. Suas dores são a tinta com a qual ele escreve suas letras e seus amores são as notas com que desenha suas melodias. É um elo entre o então e o agora. Tudo o que se conta é perspectiva das personagens que travaram contato com a pessoa Noel Rosa, de modo que ao mesmo tempo o mito é desmistificado, revelando a humanidade – destacou Daniel.
Após a estreia em São Pedro da Aldeia, o musical seguirá em circulação por teatros e clubes da Região dos Lagos, Região Serrana, Niterói e Rio de Janeiro. Para isso, a produção busca captação de apoio financeiro junto ao empresariado local. O diretor lamenta, no entanto, a falta de equipamentos na cidade de origem do projeto.
– Nossa estreia oficial será no dia 20 de março, no teatro de São Pedro da Aldeia, já que em Cabo Frio não temos um equipamento público para isso. É uma pena que na cidade onde o espetáculo está sendo construído não haja um teatro ativo - avaliou o diretor.





