segunda, 09 de fevereiro de 2026
segunda, 09 de fevereiro de 2026
Cabo Frio
24°C
Magnauto
CINEMA INDEPENDENTE

Filme buziano produzido em sete dias foi destaque em festival no Gran Cine Bardot

Sem orçamento e com diálogos improvisados, o curta "Quem Sabe Um Dia?" retrata a nostalgia dos romances de verão e a rotina dos trabalhadores locais

09 fevereiro 2026 - 17h04Por Redação
Filme buziano produzido em sete dias foi destaque em festival no Gran Cine Bardot

O cinema buziano ganhou um novo capítulo inspirado na paixão pela cidade. O roteirista, diretor e ator Nicolai Helter, de 26 anos, acaba de lançar seu primeiro curta-metragem, intitulado “Quem Sabe Um Dia?”. A obra, que nasceu de um desafio contra o tempo, mergulha nas raízes de Armação dos Búzios para contar a história de um trabalhador de barraca de praia que vive um romance intenso, porém breve, com uma turista.

À Folha, Nicolai contou que já tinha como meta criar um filme em 2025. Mas a inspiração para esse trabalho surgiu em dezembro do ano passado, quando ele soube que o Gran Cine Bardot iria fazer um Festival de Curtas Metragens e filmes produzidos em Búzios. Em apenas sete dias, ele roteirizou, produziu, gravou e editou o filme de 15 minutos, tudo sem orçamento.

– Criar um filme dá muito trabalho e envolve inúmeras variáveis. Já estávamos no final do ano, eu não tinha feito nenhum filme. Foi quando veio a notícia sobre o festival do Gran Cine Bardot. As inscrições abriram dia 22 de dezembro e encerraram dia 29. No dia 22 eu pensei: vou produzir um filme e aplicar alguma coisa, mesmo que fique ruim. A ideia veio de uma conversa com meu amigo Quissak: falávamos sobre contar a história de um dia na vida de um buziano. Aí eu conectei com vivências pessoais, características da cidade e finalmente cheguei na história do filme: Um buziano, trabalhador de barraca de praia, que se apaixona por uma turista de férias no Brasil. Os dois vivem um romance intenso, mas breve, porque, com o fim das férias a turista volta para o seu país. Por um detalhe banal, eles não trocam contato. Talvez o destino nunca mais cruze seus caminhos novamente, mas fica a memória de um amor de verão - contou.

Para Nicolai, que adotou Búzios como sua cidade natal aos 14 anos, o filme é uma forma de retribuir a acolhida que teve no município e valorizar a cultura local, “fugindo da imagem puramente comercial vendida ao capital privado”. Grande parte das gravações aconteceram na Praia de Geribá, e contaram com a participação de 16 pessoas, sendo duas no elenco principal, seis no elenco coadjuvante e oito no elenco de apoio.

– Búzios carece muito de valorização da própria história e cultura. Então, contar uma história buziana, com vivências buzianas, permite que cidadãos se identifiquem, compartilhem histórias e fortaleçam seus laços com a cidade e com as experiências que tornam Búzios tão especial. E a maioria do elenco era de amigos e conhecidos que estavam disponíveis ali na hora. Eu e a Lara, que é minha namorada, fizemos os protagonistas. O Arthur Cavalcanti, que fez elenco de apoio e também a direção de fotografia, eu conheci através do Instagram. Sofia Eboli, uma amiga distante, estaria em Búzios nas datas da produção do filme e fez a assistência de direção. Cuni e Max, que têm o bugre no filme, são dois irmãos que eu conheci trabalhando como figuração na série Ângela Diniz, da HBO. Não tinha muito tempo para fazer a seleção, mas todo mundo que a gente imaginou para participar topou a ideia na hora. E só conseguimos gravar em Geribá porque tenho um amigo (Vinícius) que trabalha lá com barracas. Expliquei o projeto pra ele, falei da urgência, das condições, e que não tínhamos dinheiro nenhum: era um projeto feito no amor. Ele topou, e cedeu o espaço da barraca, que continuou funcionando normalmente durante as gravações. Em diversos momentos eu tive que sair no meio da cena para atender os clientes de verdade que chegavam porque eu estava uniformizado - contou Nicolai.

Além de Geribá, o curta-metragem também teve como cenário algumas casas na Praia dos Ossos e imóveis do Centro. Isso porque, segundo Nicolai, a ideia era ambientar o filme em décadas passadas.

– As cenas dentro de casa foram na casa da Lara mesmo. Todo restante a gente teve que se virar com ambientes públicos mesmo. Quando o Nico sai de casa, nos Ossos, para encontrar os amigos, por exemplo, ele não estava dentro da casa: ele só se escondeu entre a parede e o portão fazendo parecer que saiu de dentro daquela casa. Foram sete dias desde a ideia inicial, roteirização, produção, gravação e edição do filme. Eu comecei a editar o filme no dia 27 de dezembro (dois dias antes do prazo final para a inscrição no festival): tinha 1 hora e 40 minutos de material bruto que viraram esses 15 minutos - revelou Nicolai.

A falta de tempo e de recursos impôs limitações que acabaram ditando o ritmo da obra. Sem equipamentos de luz, a equipe ficou refém da iluminação natural, e os diálogos foram improvisados no momento das gravações.

– A falta de tempo foi responsável por 80% dos problemas que a gente teve por causa da velocidade em que as decisões eram tomadas. Por conta do tempo a gente teve que simplificar muita coisa. A gente sempre acha que poderia ter sido melhor, mas se não existisse essa pressão para terminar o projeto em tempo, tudo poderia ter ficado só no campo das ideias e nunca ter saído do papel. A gente foi aprendendo tudo na prática. E a falta de mão de obra especializada também aumentou o desafio - revelou.

Com o filme pronto, Nicolai lembra da emoção no momento em que o filme foi exibido no Gran Cine Bardot:

– Quando o projetor ligou e disparou os raios de luz sob aquela enorme tela de cinema, meu corpo foi inteiramente tomado por uma energia calorosa que fez todos meus pelos arrepiarem. Aquelas noites viradas, o estresse, o trabalho árduo compensou: “mãe, eu tô no cinema!” eu pensei. O Gran Cine Bardot também foi um grande apoiador por realizar o festival, dando esse espaço para criadores locais e fomentando a cultura em Búzios. E no final do filme muita gente me pediu uma continuação, mas eu acho que a história está completa porque nem tudo na nossa vida tem o final que desejaríamos que tivesse. Por ser uma história bem realista, espero que o espectador apenas sinta, se identifique e viva a mesma nostalgia que o personagem viveu anos atrás com aquele romance de verão. E também queria jogar luz para essa condição que nós, trabalhadores de cidades turísticas, vivenciamos: as relações diversas, intensas e efêmeras que são características do nosso trabalho com público - explicou Nicolai, lembrando que “Quem Sabe Um Dia? foi o primeiro filme que ele produziu. “Eu já crio conteúdo para redes sociais há aproximadamente dois anos, com vídeos de um a dois minutos, mas essa foi a primeira vez que criei um filme para cinema” - revelou.

Para o diretor, o turismo é um ponto central dessa narrativa e da vida em Búzios. Nicolai afirma que “sem ele, não seria comum ver histórias como essa acontecendo”.

– Muitas pessoas que viram o filme relataram sobre a similaridade das histórias que elas também já viveram em Búzios, trabalhando com turismo. O trabalho turístico envolve o contato amplo e direto com público, você cria conexões com pessoas muito diversas em personalidade, origem, costumes, e isso é muito enriquecedor. Por mais que essas conexões sejam efêmeras, de alguma forma elas nos marcam tanto que podem mudar completamente o rumo da nossa vida. O filme fala disso, e a forma como lidamos com o final dele é também sobre como lidamos com essas experiências – explicou Nicolai, lembrando que “Quem Sabe Um Dia?” foi o primeiro filme que ele produziu.

Agora, o projeto entra na etapa de distribuição. Nicolai contou à Folha que está inscrevendo o curta-metragem em festivais e editais, buscando reconhecimento e recursos para remunerar a equipe que trabalhou de forma voluntária.

– Nossa equipe de produção é pequena, e ainda tem muito trabalho a se fazer. Aplicar para festivais e editais não é fácil e envolve diversos trâmites que eu estou aprendendo na prática. Admito que estou enfrentando dificuldades nesse processo, mas estamos conseguindo caminhar. Cada pequeno passo dado é um passo a mais em direção ao sucesso do filme. Com todo esse trabalho esperamos conseguir algum apoio da prefeitura para levar Búzios para o restante do Brasil e até quem sabe para o exterior, porque precisamos que a história e cultura da cidade sejam mais valorizadas e difundidas. Búzios é aquele lugar que você ouve três histórias diferentes sobre a origem da mesma praia, e não sabe qual delas é a verdadeira. Então, eu queria muito fazer um documentário sobre a história e a cultura de Búzios. Na área da ficção também quero produzir mais histórias buzianas para mostrar nossa cidade para o mundo e incentivar a produção de cinema local - concluiu.