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Coluna

Paradoxo da escassez

09 abril 2026 - 12h04

Certa pessoa, vendo uma partida de futebol, exclamou inocentemente: “Por que não dão uma bola para cada jogador para que eles deixem de disputa-la”?  Na mesma linha de pensamento seria o caso de perguntar: Se o problema da humanidade é a falta de dinheiro, por que não se permite a cada pessoa emitir sua própria moeda? A resposta está no princípio da escassez, cujo significado é a falta, carência ou ausência de alguma coisa. Em termos econômicos, a escassez emerge do pressuposto de que as necessidades humanas são infinitas, ao passo que os bens ou meios de satisfazê-las são finitos.  Todos os dias, a economia de um país, de uma cidade ou mesmo de nossa casa, tem que enfrentar o fantasma da escassez, esta coisa incômoda que não nos deixa ter tudo o que queremos ou sonhamos.A escassez assombra a economia porque os desejos das pessoas são ilimitados, enquanto os recursos para produzir – ou adquirir - os bens e serviços

o limitados. Sempre fica faltando alguma coisa para alguém, sendo que nos países pobres a escassez de recursos (dinheiro, pessoas capacitadas para trabalhar, infraestrutura, etc.) é mais séria e acentuada.

Por mais paradoxal que possa nos parecer, a escassez é que mantem o sistema econômico em funcionamento, dentro do princípio da oferta e procura. Em muitas situações são tomadas medidas para provocar o que chamamos de “escassez artificial”. A mídia vez por outra divulga ações de produtores que jogam milhares de litros de leite fora, outros que destroem toneladas de grãos, hortaliças, cebolas, tomates, etc., para diminuir a oferta, com o objetivo de elevar preços no mercado. Um dos casos mais clássicos na história econômica brasileira foi o ocorrido no dia 13 de junho de 1931, quando o governo de Getúlio Vargas ordenou a queima de milhões de sacas de café que estavam estocadas no porto de Santos, no litoral paulista. Conta-se que por quilômetros podia ser vista a coluna de fumaça levantada pela montanha de café queimando. Naquela época o café era o principal produto na pauta de exortação e a desvalorização do preço, pelo excesso de oferta, estava afetando a balança comercial brasileira. No caso dos produtos manufaturados, a escassez é provocada pela suspensão temporária da linha de produção com o objetivo de diminuir a oferta. 

O governo utiliza o princípio da escassez como uma das ferramentas para combater alta da inflação, através da limitação do crédito e da emissão monetária. O excesso de moeda, isto é, muito dinheiro em circulação, é um forte fator para elevação dos índices de inflação. Esta medida tem que ser dosada para evitar um colapso na economia.

Os economistas Stoiner (Alfred W.) e Hague (Douglas C.), autores de livros sobre Teoria Econômica, escreveram que “se não houvesse escassez nem necessidade de repartir os bens entre os homens, não existiriam sistemas econômicos nem economia”. A economia é fundamentalmente o estudo da escassez e dos problemas dela decorrentes. A escassez gera problemas econômicos em toda parte, sendo em muitas circunstâncias um mal necessário. A forma de enfrenta-los, porém varia, dependendo da organização do modelo econômico adotado. Assim, qualquer que seja a organização, três problemas precisam ser resolvidos: O que, quanto e quando produzir? Como produzir? Para quem produzir?

Transcendendo os aspectos econômicos, é também a escassez que nos permite identificar os diversos mitos sociais, culturais, esportivos e até políticos de uma sociedade. Imagine se todos os homens tivessem o mesmo talento literário de Machado de Assis ou Paulo Coelho? Se todos os jogadores de futebol tivessem a mesma habilidade de um Zico ou Pelé? E se todos os políticos tivessem o mesmo carisma de Getúlio Vargas ou Churchill? É exatamente pela escassez de determinados valores ou talentos que podemos fazer a distinção daqueles que se destacam e ficam visíveis recebendo as honras ou prêmios que a sociedade contempla.