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Coluna

Os idiotas

12 fevereiro 2026 - 16h11

   O polêmico e consagrado escritor e jornalista Nelson Rodrigues (1912 – 1980), disse certa vez: “Os idiotas vão tomar conta do mundo. Não pela capacidade, mas pela quantidade, eles são muitos”.  Na sociedade, chamar uma pessoa de idiota é uma ofensa, significando classificá-la como estúpida, tola, sem inteligência ou bom senso. Na maioria das vezes constitui um insulto, pois descreve alguém que age irracionalmente ou toma decisões ruins. O termo vem da idade antiga, na Grécia, quando era referência a um indivíduo que não participava da vida pública. Representa ainda um termo técnico da psiquiatria para designar uma deficiência intelectual  profunda, com uma carga negativa.

A palavra ficou consagrada pelo escritor e filósofo russo Fiódor Dostoiévski (1821 – 1881) no seu livro “O idiota” (1868), onde narra a história do Príncipe Michkin, homem ingênuo, bondoso e epilético, que retorna à Rússia e, por sinceridade e compaixão, é considerado um “idiota” pela alta sociedade corrupta. O enredo envolve um triângulo amoroso, obsessão e o trágico fracasso da pureza em um mundo extremamente materialista. A sociedade aristocrática, na época de Michkin, era focada em dinheiro, poder e aparência, que o recebe como um inadaptado. Em síntese, a obra de Dostoiévski é uma crítica ao niilismo e ao egoísmo da sociedade russa, mostrando como a bondade absoluta pode ser vista como fraqueza ou loucura.

Voltando aos dias atuais, vemos que nada mudou. A alienação política e a falta de engajamento e conhecimento cria um campo propício para a proliferação do clientelismo e o voto de cabresto. É oportuno lembrar um poema de Bertolt Brecht (1898 – 1956), poeta alemão, que assim diz: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos, não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do calçado e dos medicamentos, depende de decisões políticas”. Exatamente isto, tudo que acontece no país tem origem nas decisões políticas tomadas por aqueles que foram eleitos pelo povo, na maioria das vezes, feitos de otários ou idiotas.

Bertrand Russell (1872 - 1970), filósofo britânico, é autor da frase: “O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas”. O momento atual é o ideal para observar o comportamento subserviente dos eleitores, encantados com os discursos, promessas e tapinha nas costas, daqueles que receberam mandatos e não os exerceram de forma satisfatória a favor dos que os elegeram, e agora voltam querendo os votos para continuar a enganar o povo. A história é antiga, já denunciada por Rui Barbosa (1849 - 1923) quando disse: “Nada mais falsificado nas democracias do que o título de amigo do povo”.

Paulo Freire (1921 – 1997) considerava o idiota como um analfabeto político, que tem uma visão ingênua dos homens em relação ao mundo. Assim, se é um cientista, tenta esconder-se no que considera a neutralidade de sua atividade científica; se é um religioso, estabelece a impossível separação entre mundanidade e a transcendência. Se opera no campo das ciências sociais, trata a sociedade, enquanto objeto do seu estudo, como se dela não participasse.

Ser um idiota não significa nomear apenas quem se mantém afastado da vida cívica, mas também designar alguém considerado inculto sem formação intelectual ou alheio ao conhecimento erudito. Aí aparece o “idiota útil”, que é aquele que se submete a ideologias ou movimentos políticos sem compreender totalmente suas reais intenções ou consequências, sendo manipuladas pelos líderes, servindo seus propósitos. 

Há uma frase que diz: “O idiota útil, de bom grado, tece a mesma corda com a qual será enforcado”.