Morrer para frutificar. Este é um conceito da natureza que se aplica às sementes de muitos cereais e tem servido de ensinamento para a humanidade. Germinar na maioria das vezes é um processo doloroso e desafiador, pois exige sair do estado de dormência e encontrar o potencial de desenvolvimento. A semente do grão de trigo, por exemplo, para que se transforme em arbusto, antes é necessário que “morra”; a lagarta tem que desaparecer para que surja a borboleta; na cadeia alimentar do reino animal, alguns espécimes têm que morrer para que os outros possam sobreviver, e tantos outros casos. Essa contradição, ou paradoxo, se estende a muitos setores de atividades, principalmente na área econômica. Joseph Schumpeter (1883-1950), economista e cientista político americano de ascendência austríaca, defendeu em seu livro “Capitalismo, Socialismo e Democracia” a tese de que novos ciclos econômicos somente surgem com o desaparecimento de ciclos anteriores, destruindo empresas e antigos modelos de negócios. Em uma frase ele sintetiza seu pensamento: “Empreendedor é aquele que destrói a ordem econômica existente pela introdução de novos produtos e serviços, pela criação de novas formas de organização ou pela exploração de novos recursos e materiais”. Como argumentação, Schumpeter desfila cinco ondas que afetou o mundo econômico, provocando o sepultamento de antigos padrões que, como um “tsunami”, varreu sem piedade organizações de variados segmentos. São elas: Revolução Industrial, Idade do Vapor, Eletricidade, Produção em Massa e Tecnologias da Informação e Comunicação e Redes.
Quem resistiu às mudanças, morreu. Foi o caso da Kodak, quando houve a substituição da película fotográfica pela fotografia digital; da Facit e Remington, fabricantes de máquinas de escrever, que cederam lugar para os computadores eletrônicos; entre outras.
Nesse sentido, a economia tem um comportamento autofágico, pois passa a alimentar-se da sua própria essência. Empresas e pessoas precisam, a cada dia, se reinventar para enfrentar as novas “ondas”, adequando-se aos novos tempos.
Numa visão mais realista, vemos que além da morte por obsolescência, o progresso também se alimenta da morte física de vidas humanas, como aconteceu na construção da Ponte Rio-Niterói, onde, em nome do progresso, morreram centenas de pessoas, muitas engolidas pelo concreto que era despejado no enchimento dos pilares de sustentação. Para que um diamante chegue às joalherias de Paris ou Nova York, faz-se necessário que vários trabalhadores nas minas da África do Sul morram, e a terra fique degradada. Como no primeiro objeto feito pelo ser humano a atingir o espaço, que faria do engenheiro alemão Wernher Von Braun (1912 – 1977), um dos fundadores da NASA, no qual teve 21 mil mortos (12 mil no trabalho escravo de sua construção e 9 mil pelos impactos), número de vítimas do foguete V-2. Que permitiriam, a partir de 1969, o envio de astronautas à lua, preço da exploração espacial, e por aí vai.
As batalhas que se travavam entre nações na antiguidade colocavam frente a frente os exércitos inimigos. A um sinal dos comandantes, eles se punham em marcha para o confronto. Porém um detalhe chama a atenção em relação à estratégia utilizada: os soldados mais fracos, menos hábeis, eram colocados no “front”, com consciência que teriam uma morte certa; morriam para que os mais fortes e preparados, que vinham nas baterias de fundo, pudessem encontrar um inimigo já fragilizado e assim poder vencer. Na atualidade, as guerras são travadas à distância com os modernos artefatos bélicos, isso quando não utilizam armas bacteriológicas. Mas o sacrifício em nome do progresso continua. Nos laboratórios e institutos de pesquisas são sacrificados milhões de animais como cobaias ou experimentos de novas drogas, destinadas aos seres humanos. Aliás, quando conceituamos didaticamente custo de produção, dizemos que “é o que se sacrifica para obtenção do produto”.
No comando dessas mudanças está o capitalismo, insensível, frio, ganancioso, que não mede consequências para alcançar seu objetivo primeiro, que é o de proporcionar lucro aos investidores. Seus tentáculos se estendem a todos os setores de atividades econômicas, da cultura à medicina, passando pelo político e religioso. A história cobra do capitalismo a destruição do vasto acervo patrimonial, sacrificado em nome do desenvolvimento econômico. Na cidade de Cabo Frio temos um exemplo, em dimensão menor, dessa destruição de patrimônio histórico. Quem conheceu esse balneário na década de 1960/70 pode avaliar o rastro de destruição deixado pelas construtoras e incorporadoras que demoliram, sob os olhos insensíveis das autoridades, construções centenárias que hoje seriam um atrativo turístico. É o preço do progresso, que poderia ser argumentado, mas não existe o mínimo de racionalidade nessa defesa.
Segundo Zygmunt Bauman (1925 – 2017), sociólogo e filósofo polonês, as relações sociais, econômicas e de produção são frágeis, fugazes e maleáveis, descrevendo a modernidade líquida, enquanto a modernidade sólida é caracterizada pela rigidez e solidificação. Com o início do Capitalismo as relações econômicas ficaram sobrepostas às relações sociais e humanas. A lógica do consumo entrou no lugar da lógica da moral. Neste certame, diz-se que: “O capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento”.
Certo estava o poeta grego Píndaro (518 a.C – 437 a.C.), quando afirmou: “Muitas vezes o que se cala faz maior impacto do que o que se diz”.

